"ANGOLA – DEMBOS – GOMBE-IA-MUQUIAMA"******

FACTOS




DESCRIÇÃO DE FACTOS ACONTECIDOS


Dias 17 e 18 de Dezembro de 1971

São quatro horas da madrugada. Está tudo pronto para a partida. Os UNIMOGS já se encontram à frente do Quartel.

Saboreio agora aquela mistela a que dão o nome de café, mas que tão bem me sabe quando misturado com um pouco de aguardente.

O furriel já na “porta de armas” acabou de mandar formar o pessoal que vai participar da operação. Acendo um cigarro e tomo o último gole de café. Apanho as minhas “coisas” e comento com o "China", que também vai participar da operação:

- Com estas duas “rações” parece que vamos para longe. Sabes para onde vamos, pá?

- Não sei. Ouvi dizer que vamos para o lado do Rio Úcua, ninguém tem ainda a certeza. Mas não tenhas pressa, já vamos saber onde vai ser o “passeio” - responde o "China" com uma gargalhada de sacana....

- Meus Senhores - começa o furriel - A nossa ação de patrulhamento de hoje vai ser numa área depois da Roça São João, entre o Rio Úcua e a picada. Vamos demorar cerca de dois dias. Estão todos bem ou algum de vocês está com algum problema de saúde?

Fez-se silêncio. Eu pensei com os meus botões: “Eu estou bem e como não tenho outra saída, não vejo a hora de entrar na mata.”

- Muito bem, então vamos subir nos UNIMOGS - ordenou o furriel.

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Chegados aos dois imbondeiros toda a gente salta dos UNIMOGS, salvo os que vão escoltar as viaturas de volta ao quartel.

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À frente vai o João Domingos a cortar a mata densa, o que torna a progressão mais rápida do que o costume. Este indivíduo é um ex-chefe activista do M.P.L.A. que actualmente serve de guia às Nossas Tropas. É um óptimo pisteiro. Quando encontra um rasto dos turras nunca mais os perde. É um indivíduo que fala muito e que por isso dispõe bem a rapaziada.

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A mata é densa que se farta. Tem muitas espinheiras e quase que de minuto a minuto que o quico fica preso. Se não é o quico é a camisa, as calças, ou ainda o saco de bagagem. Esta porcaria dos picos não deveria existir. Não só prendem tudo o que passa por eles como ainda nos arranham a pele profundamente.

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São sete horas. O furriel manda-nos parar para se comer. A DOLCA de manhã sabe bem. Abrimos também uma outra lata de sardinhas e comêmo-la com gindungo. Qualquer lata com gindungo e um bocado de limão faz um bom petisco para quem está faminto... Embora não se deva fazer o furriel autoriza-nos a acender uma fogueira para aquecermos as latas, que deste modo apresentam melhor aspecto e ficam com melhor paladar.

Depois fuma-se um cigarro ... como não podia deixar de ser.

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Estamos agora numa clareira. Já é quase meio dia. Dos turras ainda nada foi visto. Levamos contudo um guia que conhece bem a região e que nos levará a lavras antigas com muitas possibilidades de estarem a ser actualmente exploradas.

O turra quando se sente muito perseguido numa zona mu­da-se para outro lugar, de forma que, de um modo geral, as lavras que ele utiliza para se reabastecer são sempre as mesmas, embora estejam em locais distantes umas das outras.

Como qualquer ser vivo, o turra necessita de água para sobreviver; portanto, não poderá estar muito afastado das correntes de água. Logicamente será perder tempo procurá-los onde não haja água.

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Só cerca das 16H00 é que conseguimos descobrir o primeiro sinal da presença inimiga, por termos descoberto um trilho de relativo pouco uso, no entanto, com vestígios recentes.

Havia vestígios de um homem ter passado pelo trilho há cerca de dois dias.

Daqui para a frente devíamos tomar maiores precauções.

O furriel mandou-nos parar para descansarmos.

- Então, João Domingos - começou o furriel por dizer ao sentar-se, - parece que encontramos qualquer coisa. A quantos quilômetros é que tu pensas que eles estão?

- Bem, não sei. Na mata é difícil saber quantos quilômetros é que temos que andar. Os turras andam muito na mata para ver se estão bem seguros. Outras vezes andam à procura de comida. Esta mata pertenceu antes da guerra ao nosso velho Cassul...

- Então esta mata era do Cassul? - perguntou o furriel olhando para a vegetação que o rodeava.

- A tonga que acabamos de atravessar era dele. Ele era muito rico antes de 61...

- Mas agora não tem nada!

- Meu furriel, esta guerra fez muito mal a toda a gente. Morreram muitas pessoas. E para quê? Não se vê nada. Os dirigentes que estão no Congo é que têm a culpa disto tudo. O povo que está nas matas já está farto desta guerra. Passa fome, não tem nada que vestir e muitos morrem de doença... Há muitos que não querem mais esta guerra. Querem fugir, mas não sabem para onde. Os “comandos” dizem que os brancos matam... E o povo tem medo de entregar-se .

- Então, mas se eles vêem que esta guerra não dá nada, porque continuam nas matas? - perguntou o furriel.

- Isto não dá para contar, meu furriel. Isto não dá para contar. Os "comandos” dizem sempre que a vitória já está perto. Que é só esperar mais um bocado. Que os que agüentam até ao fim é que vão ter sorte...

- Isso é uma boa maneira de os convencer a continuar - cortou o furriel.

- Mas o povo está farto de sofrer - continuou o Domingos. - O povo tem muito medo dos brancos. Eles pensam que são todos mortos e portanto têm que continuar a viver escondidos nas matas.

- Pois é, é um dilema dos diabos - disse o furriel.

Calaram-se pensativos.

- Bem, vamos continuar a andar - disse o furriel.

Agora a progressão era lenta para evitar-se fazer qualquer ruído.

Entramos num trilho de bastante uso, o que nos levou a pensar estarmos de facto já muito perto de algum acampamento.

O trilho dirigia-se para o alto de uma pequena elevação.

De repente os homens da frente pararam e abaixaram-se. Comecei a distinguir umas vozes de mulher não muito longe à frente de nós. Devíamos estar a cerca de trinta metros dos turras. Toda a gente se abaixou. Em todos os rostos notavam-se linhas de expectativa. Estes momentos arrasam até os espíritos mais fortes, por desconhecermos o que nos espera.

O furriel fez sinal para avançarmos lentamente. O pequeno grupo reuniu-se à volta do furriel que disse em voz baixa:­

- Meus Senhores, eles estão aqui como estão a ouvir. Muita calma. Nada de tiros!!! Tiros só em último caso!!! O que é preciso é ter calma. Não se esqueçam. Vamos avançar devagar. Antes disso vamos deixar ficar aqui os sacos de bagagem. Tu e tu (indicou um soldado e um carregador) Vocês ficam aqui a guardar esta “tralha”. Os outros sigam-me. Não tenham pressa e acima de tudo vejam-me onde põem os pés. Vejam-me onde põem essas patas! Não podemos fazer qualquer barulho se não eles desaparecem!!!

Os turras continuavam a falar despreocupadamente...

Depois de breves momentos começou a progressão lentíssima, pé ante pé, como tinha que ser.

A vegetação era muito densa e não nos deixava enxergar nada do que se passava à frente...

O furriel fez sinal para nos juntarmos mais. Lá estavam as cubatas a cerca de quinze metros.

De repente um cão que ninguém imaginara, deu pela nossa presença. Era o momento de atacarmos!!!

Todos se puseram a correr loucamente atrás de quem encontravam mais próximo. Ouviam-se gritos histéricos, penetrantes, gritos que só são emitidos por alguém que esteja em estado de pânico de morte, choros, ruídos das botas batendo no chão duro....

O turra que se encontrava sentado junto da fogueira nem tempo teve de se levantar ... mantera-se quieto ante o cano ameaçador de uma G3. As mulheres é que foram mais difíceis de dominar, pois cada uma corria para onde julgava escapar às mãos fortes que as procuravam.

Vi o "China" gritar para uma das mulheres: “E tu não grita mais, NÃO!!! E fica quieta aí!!! Não adianta mais fugir!!!!! ... FICA QUIETA E PÁRA DE GRITAR – JÁ TE FALEI !!! ...

Dois soldados e o guia Domingos foram ajudar o "China", pois a mulher não se calava.

O guia Domingos falou qualquer coisa em dialeto para a mulher. A mulher espantada olhou para o guia e, pelos vistos o reconheceu, e, como querendo uma proteção, dirigiu-se para o lado dele, e aquela gritaria de choro passou para uma gritaria de lamentações (em dialeto).

Em poucos segundos havíamos dominado a situação frente ao “inimigo“ apanhado de completa surpresa.

Havíamos apanhado um homem, três mulheres e três crianças, e não tinha sido dado um único tiro, o que nesta guerra é ­importantíssimo.

- Tivemos muita sorte, meu furriel - disse um soldado mostrando a mulher que tinha apanhado. Não fugiu ninguém pelos vistos.

- Não. Não, meu furriel - disse o guia todo radiante - este grupo tem muitas mais pessoas. Ainda falta aqui o Augusto To­cale! Faltam também duas mulheres e muitas crianças.

- Ah sim? - exclamou o furriel admirado.

- Este grupo andava comigo. Eu era o chefe deles. Eles não podem escapar. Eles estão todos aqui. Espere só que eu vou perguntar ao Pascoal, esse turra que foi apanhado agora.

Dirigiram-se ao Pascoal para lhe fazerem umas pergun­tas.

Foi o guia que perguntou:

- Ouve lá ó Pascoal! Onde está o Augusto Tocale?

- Sim, o Augusto Tocale está connosco. Foi ver umas ratoeiras.

- Ainda vem hoje? - perguntou o furriel ansioso.

- Não sei dizer - respondeu o capturado secamente.

- Mas ele costuma dormir aqui todas as noites ou não? - interrogou o furriel.

- Sim, costuma vir cá dormir.

- Onde estão os miúdos? - perguntou o guia ao turra.

- Alguns estão com ele.

- E os outros?

- Os outros foram estudar para o C.I.R. (Centro de Instrução Revolucionária) ­

- Quantos miúdos estão com ele?

- Estão seis.

- Onde estão as outras mulheres que faltam aqui? - per­guntou o guia.

- Foram buscar mandioca.

- A Maria Rumba está cá?

- Está sim. E a Isabel também.

- Então queres dizer que só há mais duas mulheres neste acampamento? - perguntou o furriel. ­

- Sim . Aqui só há mais duas mulheres.

- Okey - disse por fim o furriel com ar satisfeito por ter todas as informações. - O melhor que temos a fazer é montarmos aqui uma emboscada, para apanharmos os restantes. Assim fica este grupo todo apanhado.

Assim se fez. Os turras foram colocados todos dentro de uma cubata com dois soldados vigiando. Os outros espalharam-se pelo acampamento e ... esperávamos agora a chegada dos outros turras.

Eu olhava para o quadro que se deparava na minha frente, que para mim era pitoresco até à medula, pois nunca tinha estado num lugar habitado por turras.

Havia cinco cubatas dispostas em círculo, tendo como centro uma fogueira. O lugar estava impecàvelmente limpo. Em algumas árvores havia chifres de cervos espetados e algumas peles estavam penduradas. Havia alguns objectos espalhados pelo chão devi­do à “luta” que se travara momentos antes.

Ficamos um bom pedaço de tempo à espera, mas os turras haviam de chegar, pois já ia começar a escurecer. A não ser que nos tivessem pressentido...

Por fim, começamos a ouvir vozes de mulheres que se aproximavam do acampamento.

Aí estavam elas! Eram duas. Vinham despreocupadas com lenha à cabeça. De repente pararam, mas já era tarde. Por trás delas surgiram dois soldados que prontamente as agarraram. É difícil descrever a situação. Só quem está como espectador, como eu estive, é que pode “saborear” aquele quadro. Descrevê-lo pouco mostra ao leitor.

Os outros soldados e eu próprio saltamos dos esconderijos e demos largas às nossas emoções.

Tinham sido apanhadas mais duas mulheres e duas crianças.

- Bem “Malta”, temos que ir ter com os outros. Já está a fazer-se tarde. Os outros turras devem ter ouvido este banzé todo e já não caiem nesta - disse o furriel.

De repente ouvimos um berreiro a uns trinta metros:

- Seus filhos da puta!!! ... Tragam as minhas mulheres, seus portugueses da merda!!! Vão para a vossa terra!!! Angola é nossa!!! Não é dos portugueses!!! Tragam-me as minhas mulheres, seus filhos da puta!!! ...

A “malta” interrogava-se. Foram os gritos do guia que nos elucidaram:

- Oh Augusto Tocale, vem cá!!! Ninguém vai te fazer mal!

- Seus filhos da puta, eu quero é as minhas mulheres!!!...

Era escusado ir atrás dele. Já começava a ficar escuro o que tornava a perseguição muito difícil e com poucas possi­bilidades de uma captura.

- Bem vamos embora - ordenou o furriel. - Aquele fica para a próxima vez. Não podemos fazer nada. Já temos muitos turras apanhados e se nos dividirmos agora ainda pode fugir algum que nós já apanhamos, o que seria lamentável.

E a malta reuniu-se ao soldado e ao carregador, que estavam a guardar as nossas “tralhas”, que, ao se aperceberem que tinham sido apanhados mais turras, puseram-se a berrar como malucos.

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A noite estava escura como breu. O que nos salvava é que tínhamos trazido uma lanterna de pilhas. Tínhamos disposto o pessoal capturado no centro com os soldados a rodeá-los.

Não tinha sido possível entrar em contacto com a Com­panhia para se dar conhecimento do desenrolar dos acontecimentos da operação, mas também não interessava muito. O que interessava é que tínhamos capturado um homem, cinco mulheres e quatro crianças, o que não era mau relativamente ao pequeno efectivo de soldados.

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A noite custou muito a passar, pois todos tinham que estar acordados!

Durante a noite fumou-se o bastante para uma semana, pois não! Fazia um frio de rachar. O cacimbo caía sem um pouco de misericórdia para conosco.

Amanhecia lentamente. Às 06H00 abrimos umas latas, e muito naturalmente os turras comiam conosco. Faziam, no entanto umas caretas quando provavam as comidas, que faziam rir a rapaziada. Era o sabor dos ingredientes que eles já não provavam há muito tempo, que os forçava a fazer aquelas caretas. Sim, os turras não têm acesso ao sal e não o usam há uma década.

- Que chatice! – disse um soldado.

- O que é que foi? - perguntou outro.

- Não, estou eu a pensar aqui: agora o Augusto Tocale vai avisar os outros e estamos fritos... - respondeu o soldado. ­

- Sim, se eles aparecem aí estamos mesmo fritos - retorquiu outro.

- Acho que não - disse o guia. - Ele não pode aparecer assim aos chefes. Se ele aparecer assim aos “comandos” é logo morto.

- Não me digas! - exclamou o furriel admirado com o que acabara de ouvir.

- Sim, meu furriel - confirmou o guia.

- Então o que é que ele fará? - perguntou o furriel.

- O que ele pode fazer é vir entregar-se às tropas.

- Então, mas ele não tem medo?

- Sim, ele tem muito medo. Ele vai seguir-nos para ver onde é que as mulheres vão. Como ele vê que nós não matamos as mulheres é capaz de se vir entregar.

- Isso é que era bom! – retorquiu o furriel.

- Se ele pensar bem, vem-se entregar, porque os comandos quando souberem o que se passou, a única coisa que eles fazem é matá-lo. Eles nunca perdoam quando acontece uma coisa destas – confirmou o João Domingos.

Houve um momento de silêncio.

- Ó João Domingos - chamou o furriel. - Tu achas que o Augusto Tocale ainda passa por aqui hoje?

- Sim, com toda a certeza. Ele vai passar por aqui para ver onde as mulheres vão parar.

- Okey. Parece que tenho uma idéia em mente – disse o furriel, que procurava alguma coisa num dos bolsos da bolsa do rádio e esboçou um sorriso ao encontrar uma esferográfica.

- Quem tem aí uma caixa de R/R? – perguntou o furriel.

- Tenho eu - respondeu um soldado intrigado.

- Okey. Isto deve servir - disse o furriel pegando na caixa.

- Que vai fazer, meu furriel? - perguntou o "China".

- Já vais ver - retorquiu o furriel com um sorriso nos lábios. Cortou um dos lados da caixa de R/R (ração de combate), endireitou as partes laterais, pegou a esferográfica, pensou um bocado e começou a escrever. A “malta” chegou-se a ele intrigada.

Exmº. Senhor
Augusto Tocale
Bom dia. Tenho a certeza de que passará por aqui e como tal estou a escrever-lhe esta carta.
As suas excelentíssimas mulheres estão aqui conosco, assim como o Pascoal e as crianças. Todos estão bem e vão conosco.
O melhor que você tem a fazer é vir juntar-se a elas. Será bem recebido. Ninguém lhe fará mal, pode ter a certeza. Nós não somos como os dirigentes do MPLA costumam di­zer. Nós recebemos todos bem sem excepção.
Vou-lhe dizer uma coisa que vai gostar: o seu Pai, o Velho Cassul, está aqui conosco, só que está muito chateado com Você.
Você também pode mudar.
As suas mulheres mandam-lhe muitos beijinhos.
ANGOLA É PORTUGAL

Estava a “carta” escrita. Toda a malta aplau­diu a idéia depois de ter sido lida em voz alta.

No meio do “acampamento” foi espetado um pau, onde foi “hasteada” a “carta”.

- Bem, vamos embora. Ainda temos muito que andar. Intercalem as mulheres entre vocês. O Pascoal vai à frente de mim - disse o furriel.

Chegados à picada a malta mostrava-se satisfeita por a ter alcançado e por tudo ter corrido bem.

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Foto tirada à chegada da estrada de terra com o "turra" Pascoal, 5 mulheres e 4 crianças que estavam refugiados na mata. Os “panos” claros das mulheres são na verdade cascas de árvore batidas com pedra...
Em pé da esquerda para a direita: Domingos e Alfredo Carlos (carregadores), o velho Cassul (pai do Augusto Tocale), o soldado AP, o João Domingos (guia), o Sebastião (Milícia), o soldado João, o furriel, o cabo enfermeiro, o Moxico, o Quiaia e o China


- Meu furriel não vamos pedir as viaturas? - perguntou o cabo. - A distância é longa e temos os miúdos para levar ao colo.

- Tenham calma, pá - retorquiu o furriel - Com certeza que hão-de vir as viaturas buscar-nos. Daqui não arredo pé, pois estou completamente estourado. Passem-me para cá o rádio.

- 1,2,3,4,5,... Aqui Videira chama Laranja. ... 1,2,3,4,5, ... Videira chama Laranja. Escuto!!!

- Chichichichiuuuuuuuuuu!

- Que chiadeira danada !!! Hoje a transmissão está difícil!!! 1,2,3,4,5,... Aqui Videira chama Laranja. ... 1,2,3,4,5, ... Videira chama Laranja. Escuto!!!

- Chichichichiuuuuuuuuuu!

- Okey. Correto. Afirmativo. Toma nota...

- Chichichichiuuuuuuuuuu!

- Okey. Por agora terminado.

O furriel sorriu para nós e disse:

- Não há viaturas disponíveis na companhia. Há uma coluna extraordinária a fazer e não nos podem vir buscar.

- Não há viaturas!?

- Com certeza que há! Porra!!! ... Depois das novidades que dei, sempre há uma “carroça” para nos vir buscar...

Toda a malta riu de satisfação.

Estávamos quase a chegar ao Destacamento.

As viaturas davam tudo por tudo.

Junto ao quartel via-se um mar de gente.

A população da sanzala já devia saber dos resulta­dos da operação. Aquela gente vibrava de satisfação e atropela­vam-se uns aos outros, para verem quem é que tinha sido apanhado.

Todos vibravam de satisfação...

Os turras eram abraçados por toda aquela gente: primos, tios, cunhados....

-Olha, a minha tia foi apanhada... - ouvi dizer.

Era assim aquela gente...

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O "turra" Pascoal e as mulheres já no Destacamento do Gombe-ia-Muquiama, vestindo roupa doada pela população.
Eram todos parentes de elementos do povoado.

 

O dia tinha passado depressa. Todos queriam sa­ber como se tinha desenrolado a operação. Havia umas cervejas a festejar o acontecimento, bem como uns churrascos oferecidos por aquela gente a quem tínhamos feito voltar da selvajaria os familiares.

Eram cerca de 18H30 quando se ouviu de fora um tumulto estranho. Vozes e gargalhadas de satisfação... Gente batendo palmas ... Gente chorando e gritando ...

Chegou um soldado a correr à sala:

- Meu Furriel, vieram entregar-se um monte de “turras"! Estão lá fora!

O furriel saltou do lugar e correu doidamente para fora.

- Mais turras! - foi gritando até à porta de armas.

De facto aí estavam eles!

A sanzala corria toda para junto do quartel aos gritos. Tinham chegado mais turras!!!

Toda a gente fazia perguntas! Aquilo era um berreiro medonho! Havia alegria por todos os lados! ­

De facto o Augusto Tocale e um "monte" de turras tinham lido a “carta” e tinham escolhido a LIBERDADE...

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Dias 21e 22 de Dezembro de 1971

Hoje não é um dia normal como os outros. Estou de sentinela na “porta de armas”. São quase 23H00 ... Daqui a pouco vêm-me render, depois vou poder descansar um pouco. O Furriel mais alguns soldados saíram para fazer uma ronda para os lados do Gombe-Velho, na Sanzala Antiga. Tenho que redobrar a minha atenção no posto de sentinela, pois nosso efetivo no destacamento está reduzido.

Cada vez que dou uma tragada, escondo o cigarro abaixo do parapeito do posto de observação. Não se pode facilitar. Os turras têm estado muito perto. Vai ver que eles estão a observar o quartel e ao verem o ponto luminoso do meu cigarro, PUFFFF ! eu sou o primeiro alvo do ataque. Todo o cuidado é pouco!!!... E eu não vou facilitar!!!...

De repente começo a escutar um alarido vindo da Roça “Maria do Céu”, que vem aumentado cada vez mais... Grito pelo Cabo Patrício:

- Patrício!!! Cabo Patrício!!! Corre!!! Vem ver!!! – grito eu.

- Que ouve, pá? – pergunta o Cabo Patrício ao chegar prontamente ao posto de sentinela.

- Escuta o barulho que está vindo dali! – sussurrei.

- Que porra é esta? – pergunta o cabo Patrício intrigado.

Rapidamente, os soldados às ordens do cabo Patrício formam o dispositivo de defesa do pequeno destacamento...

Na iluminação fraca da rua (*), vejo uns vultos aparecendo depois da curva em direção ao quartel ... estão vindo em grupo ...

Porra!!! o que é que está havendo? - penso eu com o dedo no gatilho da HK 21 apontada para os “intrusos”. - Mais uns segundos e vou dar uma rajada de aviso!!!

- SÓ ATIREM QUANDO EU MANDAR !!! – grita o cabo Patrício para a pequena guarnição.

... e o grupo avança ... não se protege ... vem a peito aberto ... não têm medo !!! ...

- ESTÁ NA HORA DE COMEÇAR A ATIRAR!!! – grito para o cabo.

- NÃO!!! ... DEIXA OS GAJOS CHEGAR MAIS PERTO!!! – grita o cabo.

- MAS ... PORRA!!!... É O NOSSO PESSOAL DA RONDA QUE ESTÁ A VOLTAR!!! ... – grita para a guarnição o Cabo Patrício aliviado.

- Mas alguma coisa estranha está-se a passar! - respondo eu ainda com o coração batendo a mil...

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O furriel e o grupo da ronda chegam à “porta de armas” com a respiração ofegante. Todos falam ao mesmo tempo, gargalhadas... por todos os lados.

- O que é que houve, Quiaia? - pergunto gritando para o soldado que passava.

- Foi uma emboscada!!! Foi tiro para todos os lados!!!

- Emboscada? – pergunto admirado – Porra! O que é que houve? - repito...

- Armamos emboscada para os gajos! Foi um tiroteio dos diabos!!! Tiros para todos os lados!!! Os gajos estavam armados e responderam ao nosso fogo!!! Eles tinham metralhadoras!!!... Mas os gajos debandaram... Estou tremendo até agora, PORRA!!! ... Mas, a gente vai atrás deles!!! Eles não podem escapar!!! ...

Na “sala” estava todo o pessoal reunido, rindo e comentando o acontecido... recarregavam as cartucheiras ...

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- E aí, João Domingos!!! Que grupo é esse??? Sabes de alguma coisa? Os gajos responderam ao nosso fogo com metralhadoras!!! – perguntou o furriel ao guia.

- Não sei, mas um grupo armado assim deve ser dos quartéis do Rio Dange!!! – respondeu o João Domingos.

- Os gajos estão cada vez mais a agir nesta zona!!! Estão cada vez a chegar mais perto do quartel!!! Não deixam a nossa população em paz!!! – comentou o furriel. - Que tal a gente seguir os rastos deles amanhã bem cedo? – indagou o furriel. – O terreno está úmido da chuva de hoje ... e as pegadas não devem ser difíceis de seguir ...

- Vamos, meu Furriel!!! Estou pronto!!! É só o meu Furriel mandar!!! – respondeu o guia todo animado.

- Deixa-me falar com o Capitão. Vamos ver o que ele diz. – comenta o furriel.

Passados uns momentos, o Furriel estava no rádio:

- 1,2,3,4,5,... Aqui Videira chama Laranja ... 1,2,3,4,5, ... Videira chama Laranja. Escuto!!!

- ...

- Que chiadeira dos diabos !!! A estas horas o Rodrigues está a dormir, aposto!!! 1,2,3,4,5,... Aqui Videira chama Laranja ... 1,2,3,4,5, ... Videira chama Laranja. Escuto!!!

- ...

- Só dá chiadeira!!! Como sempre a transmissão está impossível!!! 1,2,3,4,5,... Aqui Videira chama Laranja ... 1,2,3,4,5, ... 1,2,3,4,5, ... Videira chama Laranja ... 1,2,3,4,5, ... Escuto!!!

- Laranja responde ... Rodrigues no posto ... Pode falar Videira ... Escuto !!!

- Rodrigues!!! Vai acordar o Capitão e coloca-o aí do teu lado... preciso de falar com ele!!! ... Urgente !!!

- Quer falar com o Capitão ??? !!!

- Afirmativo!!! Vai acordar o Capitão!!! Urgente!!!

- Meu Furriel! Pode transmitir a mensagem!!! Eu passo para o Capitão!!!

- Oh Rodrigues!!! Vai chamar o Capitão!!! – grita o furriel ao microfone do rádio.

- Meu furriel, pode mandar a mensagem, que eu passo para o Capitão!!! – responde do outro lado o Rodrigues.

- Oh, Rodrigues!!! Tu estás a brincar comigo??? PORRA!!! Tu estás a gozar-me??? Ou não escutaste bem? Vai já acordar o Capitão!!! É UMA ORDEM!!! POOOORRRRRAAAAA!!!!

O pessoal deu uma risadinha, mas depois ficou em silêncio. A sala estava cheia ... todos aguardavam ...

... e o rádio naquela chiadeira!!! Devido às más condições atmosféricas as transmissões de rádio à noite são sempre difíceis...

- Vou dar um “raspanete” no cabo Rodrigues!!! Mando chamar o Capitão, ele diz-me que o Capitão está a dormir!!! PORRA!!! ... Pensa que estou no rádio a estas horas para brincadeira!!! – comentou o furriel furioso.

A sala estava cheia de fumaça dos cigarros ... e o rádio ... naquela chiadeira !!! ...

O café estava gostoso!!! Com a aguardente, é claro!!!

O pessoal continuava a comentar a emboscada ... e o rádio naquela chiadeira!!! ...

- Será que o Rodrigues, foi acordar o Capitão? - indagou o Cabo Baptista.

- Espero que sim!!! – respondeu o furriel, - senão ele vai-se foder comigo!!!

De repente:

- 1,2,3,4,5,... Laranja ... chama Videira ... 1,2,3,4,5, ... Laranja ... chama Videira ... Escuto!!!

- Okey, Laranja!!! Videira na escuta!!! – responde o furriel.

- Videira pode transmitir mensagem. Estou na escuta!!! – era a voz do Capitão!!!

Em código o furriel expôs brevemente o que tinha acontecido.

- Vou-te mandar reforço imediatamente!!! Dentro de meia hora o reforço está aí!!!– informa o Capitão em tom para acalmar o pessoal.

Em código o furriel solicita autorização para perseguir o grupo encontrado.

- Okey, Okey! Autorização concedida – responde o Capitão.

- Okey, entendido! Sairemos quando chegar o reforço!!! Okey?

- Entendido!!! Toma todas as precauções!!! Esse grupo é perigoso! – responde o Capitão.

- Pode ficar tranqüilo, Capitão!!!

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A tropa de reforço comandada pelo Alferes Fonseca, chegou "voando" em cinco viaturas com uns cinquenta homens.

O Alferes se dirigiu imediatamente para a sala, juntamente com os sargentos do grupo de combate e alguns praças e inteirou-se dos acontecimentos.

O quartel estava num alvoroço infernal!! Tinha tropa por todos os lados!!! Já tinha havido ocasiões em que tinha estado até mais tropa, mas desta vez era uma algazarra total! Todos estavam falando ao mesmo tempo!!! ... entrando e saindo ...

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A "reunião" com o alferes não durou 5 minutos. O Furriel levantou-se, olhou em volta como quem está procurando alguém no alvoroço da sala e chamou o Cabo Félix.

- E aí? Tudo pronto? – perguntou o furriel para o cabo.

- Meu Furriel, já estou pronto faz tempo!!! – gracejou o Félix com um sorriso, empunhando a HK-21 e mostrando as granadas penduradas no cinturão...

- E o pessoal ? Todos prontos? Munições OK? Cartucheiras, todas carregadas? E o Sebastião e o Alfredo Carlos (*1)? Já estão aí?

- Já chegaram. Estão todos prontos, meu furriel!

- E tu, João Domingos, estás pronto? - perguntou o furriel.

- Vamos embora!!! – respondeu o João Domingos todo feliz!!!

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(*) – A iluminação fraca da rua foi dias depois melhorada com a colocação de lâmpadas mais fortes.

(**) - Sebastião e o Alfredo Carlos - elementos das Milícias.

... estamos agora já perto na Sanzala Antiga ... está cacimbando ... e mesmo assim já posso enxergar a claridade do amanhecer ... daqui a pouco o cacimbo vai embora... estamos indo pela “picada” para facilitar a progressão ... o capim está molhado ... as árvores de vez em quando largam umas gotas de água ... estamos andando já há uma hora ... evitamos de vir até aqui nas viaturas para não alertar os turras... se eles escutassem o roncar dos Unimogs iriam ficar mais alerta...

... deixamos a picada ... entramos num descampado ... é uma roça de mandioca ...

- Foi aqui que começou o tiroteio todo... era aqui que eles estavam – informa-me o Salvador.

A partir deste ponto começava efetivamente a operação... a partir de agora era preciso muito cuidado, muita atenção, olhos muito abertos, ouvidos prontos...

O Guia João Domingos vai na frente, logo seguido pelo furriel ... depois o Salvador ... eu sou o quarto homem ... atrás de mim vai o cabo Félix, o Antunes e depois o Sebastião, que é da Milícia... os demais elementos vão lá para trás distantes uns dos outros ...

O João Domingos vai “farejando” as pegadas dos turras... de vez em quando pára e fica observando algum detalhe... depois volta e vai em outra direção... eu acho que ele está indeciso... ora vai para uma direção e depois para outra!!!...

- O gajo que passou por aqui batia as pernas no rabo!!! – graceja o Salvador – Era muito tiro ... eles fugiram com o rabo entre as pernas ...

Agora o João Domingos pára, olha para a direita, abaixa-se, olha para um lado, olha para o outro, com o braço indica uma direção para a direita, comenta alguma coisa com o furriel... põe-se de pé, passa a mão pela nuca, levanta a boina, coça a cabeça ... comenta mais alguma coisa com o furriel ... gesticula mais alguma coisa... finalmente volta a andar e dirige-se para o lado direito ... e lá vamos nós também ...

... parece que agora o João Domingos apanhou as pegadas dos gajos – pensei eu ... já não pára mais para observar o chão ... já vai mais rápido ... e não pára ... de vez em quando dá uma catanada em algum ramo que está no caminho ... eu estou com os nervos à flor da pele ... toda a atenção é pouca!!! ... O Salvador está incumbido de “ficar mais atento” para o lado esquerdo ... eu estou incumbido de me “preocupar” mais com o lado direito ... mas eu não quero facilitar ... eu olho para o lado direito, mas não me esqueço de olhar para o lado esquerdo e ... para a frente também!!! ... eu vasculho tudo ...não vou facilitar ... todo o cuidado é pouco ... muito pouco, mesmo!!! Qualquer ruído que escuto da floresta ... meu coração acelera ... desperta ainda mais minha atenção... se é que pode ...

... voltamos para a picada ... em direção ao rio Úcua ... muita atenção ... andar na picada é perigoso!!! ... eu prefiro andar no meio da mata ... pelo menos é mais difícil os turras nos verem ... na picada eles podem-nos armar uma emboscada mais fácil ... na mata podemos nos camuflar mais ...

... já andamos bastante ... já passou do meio-dia ... estou com uma fome!!! ...

... parece que eu estava adivinhando ... o furriel mandou que parássemos para descansar e para comermos alguma coisa ...

... o descanso e a refeição foi de pouco tempo ... estávamos a seguir os turras e não podiamos perder tempo ... e lá fomos nós ...

... já andamos bastante!!! ... devemos estar a chegar às margens do Rio Úcua ... mas estamos a seguir as pegadas dos turras ... o caminho certo é este mesmo ... passamos o topo de uma elevação e estamos agora começando a descer para uma baixa ... de repente ... o pessoal da frente pára e ... estou escutando vozes lá em baixo ... "São eles" - penso eu ... furriel manda o pessoal de trás avançar até junto dele ...

- Hei malta, aí estão eles!!! - sussurra o furriel. – Vamos dividir-nos em dois grupos. Félix, vai com o teu pessoal uns 20 metros para a direita e depois toma a direção das vozes... eu continuo neste trilho...

O pessoal dividiu-se em dois grupos... no primeiro grupo, o furriel e mais dois soldados e um milícia dispuseram-se em linha e avançaram aos poucos em direção às vozes... sem qualquer ruído... enquanto o outro grupo se deslocava para a direita, para cercar os turras... de repente lá estavam eles... uns sentados... outros em pé... fogueira acesa... por segundos ficamos a aguardar que desse tempo que o outro grupo se aproximasse do acampamento também ... o combinado para a ordem de atacar... era um tiro para o alto... e lá veio ele!!!... todos avançaram aos gritos de “AGARRA!!!... AGARRA!!!... AGARRA!!!... AGARRA!!!” e gerou-se uma confusão danada... um dos turras, empunhando uma “Mauser”, correu para a nossa direção... quando nos viu, parou, deu meia-volta e voltou para o acampamento... o resto do nosso pessoal já tinha tomado o acampamento... e gerou-se uma luta de corpo a corpo... infelizmente alguns tiros... até que por fim... após alguma luta e gritaria o “grandalhão”, ferido no pulso, largou a arma para o furriel com quem se debatia... e um outro turra ainda em luta corporal resistia a alguns soldados... mas por fim rendeu-se também... os restantes turras haviam fugido para a direção onde não havia soldados... e lá fomos a perseguir os que haviam “debandado” ... um deles estava ferido... na luta de corpo a corpo havia-se agarrado ao "AP" e a dois milícias ... apanhara um ou dois tiros sabe-se lá aonde ... e mesmo assim não foi possível segurá-lo ... acabou fugindo para dentro da mata ... e mesmo correndo atrás dele conseguiu desaparecer no meio da floresta densa (**)... Quanto aos outros também ... não havia possibilidades de os apanhar!!!... Demos umas rajadas para a direção dos “fugitivos” e voltamos correndo para o acampamento...

... não havia muita coisa mais a fazer... vasculhamos o acampamento... muita carne seca... algumas catanas e facas ... alguns utensílios... alguns sacos cheios de "tralhas" ... o corpo de um "turra" estendido no chão... ainda respirava... no seguimento da cabeça metade do crânio estava despedaçado no chão... não havia mais nada a fazer por ele...

- Como te chamas – perguntou o furriel para o capturado.

- Paulo Mussunda.

- Quantos fugiram?

- No grupo havia oito. Fugiram cinco...

- Estão com armas?

- Não.

- Não mesmo?

- Perdemos as armas todas. Ontem, na emboscada, perdemos outra arma !

- Onde? Na emboscada?

- Sim, uma “Kalashnicov”...

- Uma “Kalashnicov”???!!!...

- Sim, era muito tiro!!!...

O furriel pegou no rádio e entrou em contato com a Sede da Companhia:

- 1,2,3,4,5,... Aqui Videira chama Laranja. ... 1,2,3,4,5, ... Videira chama Laranja. Escuto!!!

- ....

- 1,2,3,4,5,... Aqui Videira chama Laranja. ... 1,2,3,4,5, ... Videira chama Laranja. Escuto!!!

- Videira ... aqui Laranja ... Laranja à escuta!!! ... Pode transmitir Videira!!!...

- ... a operação aqui terminou!!!... conseguimos encontrar os gajos!!!... estamos com dois prisioneiros!!! ... apanhamos duas "Mauser"!!! ... precisamos de duas viaturas para apanhar a gente na Roça São João!!! ...

- As viaturas vão sair agora ... meu furriel!!! ...

- Passa a mensagem para o nosso Capitão, AGORA!!!

- Okey, pode ter a certeza!!! ...

- Okey. Por agora terminado.

- Vamos embora!!! - ordenou o furriel - Vamos ter que apanhar a outra arma que eles deixaram no local da emboscada!!!

... e lá começamos a andar em direção à Roça São João...

(**) - por informações posteriores, viemos a saber que o guerrilheiro ferido, veio a falecer, conforme consta na "Informação adicional", datada de 29/05/1972.

......................................................................

Quando chegamos à Roça São João, as duas viaturas já estavam à nossa espera ... e foi aquela algazarra ... grande parte do pessoal da Fazenda a olhar com espanto os turras capturados ... todos queriam saber o que tinha acontecido ...

- Vamos embora!!! - ordenou o furriel subindo para uma das viaturas - Vamos ter que encontrar a "Kalashnicov" que eles deixaram no local da emboscada!!! ...

.......................................................................

Em cima de uma Mercedes o furriel deu as instruções:

- Vamos deixar os turras capturados no quartel e depois vamos ao Gombe-velho procurar a "Kalashnicov". Quem quer ir procurar a "Kalashnicov"? - perguntou ainda o furriel com ar de sacana...

- Eu não vou perder uma dessas, meu furriel! - respondeu o cabo Felix.

- Nem eu!!! - gritou um soldado.

- Então fica combinado: já que todos querem ir, vão todos os que participaram da operação - disse o furriel.

Será que iríamos encontrar a "Kalashnicov"? - pensava eu. Mas se o turra havia dito que a arma havia sido perdida devido ao tiroteio da emboscada, era sinal que efetivamente a arma estava abandonada por lá!!!

...e as viaturas davam tudo por tudo...

Na chegada ao Gombe viu-se um mar de gente em frente ao quartel. Já sabiam do acontecido. Foi difícil passar pela multidão ... era dia de festa!!!

Todos se abraçavam de alegria e satisfação ... muitas perguntas ... muitas gargalhadas ...

Os prisioneiros, após alguns abraços dos elementos da população, provavelmente familiares, foram encaminhados, por questões de segurança, para dentro do quartel e ficaram aos cuidados da guarda do cabo Patrício.

- Vamos embora!!! Agora chegou a vez da "Kalashnicov"!!! - gritou o furriel ao subir para uma das viaturas.

... e lá fomos todos os que tinham participado da operação nas duas Mercedes.... rumo ao local da emboscada da noite passada...

... chegados ao local... todos saltaram das viaturas... organizados numa frente de mais de 100 metros e distanciados cerca de 10 metros uns dos outros... vasculhávamos tudo...depois de uns cinco minutos de procura ... e a uns 50 metros da picada ... quase no final da linha de frente do meu lado direito... ouviu-se um grito:

- ACHEI!!!... ACHEI!!!... ACHEI!!!...

Com a arma para o alto, o milícia Sebastião gritava que nem um doido...

...e foi aquela gritaria e correria até todos chegarem até o Sebastião, que exibia orgulhoso a arma para o alto...

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Chegada ao Destacamento do Gombe após a captura de dois guerrilheiros do MPLA e apreensão de uma metralhadora "Kalashnikov" e duas "Mauser".
Além da tropa vêm-se o Sr. Roque (*) e o Sr.Silva(*), dois comerciantes e moradores do local.
(*) - conforme gentilmente informado pelo Sr. Antonio Pinto, ex-morador do Pango.

Em frente ao Quartel da Companhia de Caçadores nº 1204/70, no Pango Aluquem, com as armas capturadas. O guia João Domingos participou da operação, rasteando as pegadas dos guerrilheiros
até à sua captura.

Foto do "sapato" deixado no local da emboscada. Pertencia ao chefe guerrilheiro "Lumumba". Pelo tamanho do "sapato" pode-se imaginar o tamanho do "gorila".

 

 

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Relatório de ação e de interrogatórios do pessoal capturado



Dias 5 e 6 de Maio de 1972

São 17H00. O Furriel manda o corneteiro tocar a formar.

Depois de o pessoal ter chegado todo, começa o comandante do destacamento por dizer:

- Meus Senhores, amanhã temos uma operação. A nossa missão é capturar um elemento terrorista chamado José Mabemba. Acompanha-o um grupo de cerca de dez turras. Pela informação que temos ele está presentemente na mata do Gombe-Ia-Lengue. Estão escalados para a operação o 1º Cabo nº .... e os soldados nºs. ....

- Meu furriel - diz um soldado escalado - eu estou com o meu joelho direito “en­cravado".

- "Encravado"?

- Sim. Não posso andar muito.

- Tu és sempre o mesmo, porra!!! Sempre que há uma operação tens que arranjar uma doença. Há mais algum doente? - pergunta o furriel.

... silêncio ... ninguém se manifesta ...

- Okey. Já que o “doentinho” não vai, alinha o A.P. no lugar dele. Estás a ouvir A.P.? Vais no lugar dele.

- Está bem, meu Furriel - responde o AP conformado.

- Bem, a operação deve ser de um ou dois dias, continua o furriel, com saída prevista para as 05H00, cada um vai levar duas R/R (Ração de Combate). Há alguma dúvida?

- Meu Furriel, esse grupo anda armado? - perguntou o cabo.

- É pá, não sei. Mas como ele é chefe activista do MPLA é capaz de ter armas. Nunca ouviram dizer que na guerra nunca se sabe? Contudo acho que não teremos muitas dificuldades. Levamos como guias o João Domingos e o Augusto Tocale. O chefe Sebastião também vai. Eles conhecem bem a zona. Há mais alguma dúvida?

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Quando entramos na mata eram cerca de 06H30. Como sempre tinha cacimbado toda a noite e por isso os ramos da vegetação molhavam-nos todos à nossa passagem. Não fazia mal. Já estávamos habituados a tudo: já tínhamos apanhado por diversas vezes grandes chuvadas em cima do "pêlo".

Andamos cerca de duas horas até que entramos numa “tonga” onde havia um trilho usado recentemente.

“Estávamos com sorte ou quê? Logo assim tão cedo?” - pensei.

Encontrado o trilho tínhamos duas maneiras de agir: ou ir numa direcção com o grupo todo, ou então dividir a ­secção em duas equipes e ir cada uma em direcções opostas.

Optou-se pela divisão em equipes.

- Bem, vamos dividir-nos - começou o furriel por dizer. - Eu vou nesta direcção e tu, Félix, vais nessa. Vamos ver qual é que tem mais sorte. Em caso de haver qualquer coisa num grupo esse grupo volta para trás até encontrar os outros. Está combinado?

- Okey, meu furriel - respondeu o Félix.

- Então boa sorte...

A equipe aonde eu ia andou pouco, pois logo a seguir encontrou um rio e por mais que se procurasse o trilho não continuava na outra margem. A única solução era voltar para trás.

Chegados ao local da separação das duas equi­pes seguimos os rastos deixados pelos outros, o que era facílimo.

A determinada altura começou-se a ouvir vozes de mulheres. O pequeno grupo fez alto imediatamente e abaixou-se.

- Meus Senhores - sussurrou o furriel - aí estão eles. Vamos avançar com muita calma. Como sempre já sabem não quero tiros, a não ser em caso de absolu­ta necessidade. Ouviram? Bem, vamos embora!

A progressão fazia-se lentamente, pois os turras já estavam muito perto de nós.

- Hei malta, lá estão eles. São três mulheres e três crianças.

Lá estavam elas a falar e a trabalhar normal­mente. Era um quadro invulgar. Turras ainda à solta e tão perto de nós! Dava-me uma vontade de começar a correr!!!

- Bem rapazes. Tu e tu para aquela que está na fogueira. Tu e tu para a que está a entrar na cubata, e os outros para a que está à direita. Okey? AO ATAQUE!!!

As mulheres só se viraram espantadas para nós, não fazendo qualquer gesto de fuga... pois de dentro das cubatas apareceram os nossos rapazes!!

- Porra !!! Vocês já cá estavam? ... - exclamou o furriel.

- É verdade - retorquiu o cabo Félix satisfeito. - A­panhámo-las há cerca de meia hora. Estávamos emboscados dentro das cubatas porque o José Mabemba ainda não foi apanha­do e ele deve estar a chegar.

- Ó pá, isso é que são notícias! - exclamou o furriel, olhando para a “paisagem” do acampamento.

- Bem, meu furriel - disse o cabo Félix - vamo-nos emboscar ... uns dentro das cubatas ... outros na orla do acampamento ...

- Mas, espera lá - cortou o furriel - então as mulheres ficam aqui fora e não fogem?

- Não fogem. O João Domingos conhece-as e convenceu-as para que continuem a trabalhar como se nós não estivéssemos aqui. Uma das mulheres, que é irmã do Mabemba, disse que se ia entregar se não fossemos nós, pois a semana passada o marido morreu numa emboscada...

... e o pessoal organizou a nova emboscada ... Agora era só que o tal Mabemba chegasse...

Este José Mabemba tem um “bonito” cadastro, pensei. É chefe terrorista desde 1961. De 1958 a 1960 cumprira o Serviço Militar no Exército Português, tendo feito uma comissão na Índia Portuguesa e outra em Cabinda com o Posto de 1º Cabo. Quando rebentou o terrorismo fugiu para a mata, tendo desde então desempenhado lugares de chefia quer na U.P.A. quer no M.P.L.A. Actualmente é Chefe Activista do MPLA. Fora ele o comandante do ataque a uma peque­na povoação comercial nos Dembos em 1961. Em 1969 comandou um ataque a uma Sanzala da Paz.

Pelos dados que tínhamos imaginava-o um gigante. Segundo nos tinham dito, usava barba até ao peito. Devia meter mêdo a qualquer um! Era preciso ter cuidado!

......................................................................

Pouco tempo esperamos.

Na direção do lado da frente da porta da cubata, vindo de uma encosta, ouvimos o ruído de quem passa pela vegetação, e vi um homem a aproximar-se do acampamento logo seguido de um miúdo.

Eu estava admirado com o que se estava a desenrolar, pois ele estava a olhar para mim (eu não me con­seguira ocultar completamente – estava dentro da cubata, em frente à porta) e ele não fugia! Continuava em direção à cubata!...

Quando ele estava a uns cinco metros da porta da cubata, o furriel pulou da porta da cubata com a G3 apontada e foi só agarrá-lo por um braço e tirar-lhe a catana. Ele não te­ve um gesto de fuga ou qualquer outro, o que nos admirou bastante como era de calcular... do outro lado surgiram os ou­tros soldados... o miúdo de uns 10 anos, sem entender nada e na sua ingenuidade, ficou ao lado do pai ...

- És tu o José Mabemba? - perguntou o furriel.

- Sou sim, camarada - respondeu o turra.

- Então tu estavas a olhar para a porta, viste o meu camuflado ou não?­

- Vi sim.

- E não fugiste?

- Estava a pensar que vocês eram guerrilheiros do MPLA.

- Guerrilheiros do MPLA ?

- Sim.

- Tem mais alguém contigo?

- Não.

- Não tem?

- Não tem mais ninguém comigo.

... a malta vibrava de satisfação pelo resultado alcançado ... todo este grupo refugiado nas matas tinha sido capturado ...

O furriel pegou no rádio, esteve a pensar um bocado e depois disse:

- Bem, não vou comunicar nada à Companhia. São ainda 10H00, e se lhes disser que vamos regressar por a operação ter acabado não acreditam ou então pensam que estou maluco ... Hei, mas esperem! Tenho que lhes pedir viaturas para que logo que tenhamos chegado à picada estejam à nossa espera ...

... e lá fomos em direção à picada ...


Dia 23 e 24 de maio de 1972

Era dia de coluna.

Esperávamos a todo o momento a ordem do furriel para arrancar para a operação... ­

A coluna havia chegado comandada pelo Capi­tão que logo havia chamado o furriel.

Vi os dois manterem um diálogo longo em frente à "porta de armas". Por fim o furriel fez uns rabiscos no chão e pediu ao capitão para retirar-se.

- Bem rapazes, exclamou o furriel para a guarnição do Destacamento que estava em formatura, os que estão designados para operação vão na “Mercedes” da frente. Cabo Félix!!! Manda destroçar a guarnição!!!

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No rio Caoambala as viaturas pararam para descermos. As viaturas continuariam a viagem em direção ao Úcua ... ao passarem por nós a tropa em cima das viaturas nos desejava boa sorte ... e por fim as viaturas acabaram de sumir depois da curva ...

... e agora só estava eu, o furriel, oito soldados, o José Mabemba e dois carregadores ...

- Cheguem-se para ao pé de mim. O plano de hoje é o seguinte: vamos descer o Caoambala até ao rio Úcua... Atravessamos o rio Úcua e procuraremos vestígios de turras. Temos informações concretas de que existe um pequeno número calculado em cerca de seis turras ...

- Meu furriel, é só apanhar seis turras e vir embora? - “brincou” um soldado com uma risadinha de sacana.

- E depois? Achas que é difícil?

- Não, antes pelo contrário. Pelos vistos não é assim tão difícil apanhar seis turras. A não ser que eles tenham armas...

- Bem, o número de turras não nos aflige, até porque nós somos oito e portanto ainda ficarão dois espec­tadores... Não acham?

Houve gargalhada geral.

Entramos na mata e começamos a longa marcha. De hora a hora parávamos para descansar. Quando chegamos ao rio Úcua estivemos parados quase uma hora para comermos alguma coisa e descansar.

Depois de termos atravessado o rio Úcua foram logo descobertos inúmeros trilhos, dos quais um se sobressaía por ser o mais utilizado, pelo que foi esse que seguimos.

À frente ia o José Mabemba, ex-turra apa­nhado à cerca de quinze dias, pelo que íamos relativamente à vontade, pois ele conhecia todas as artimanhas da mata.

A progressão era relativamente lenta, pois tínhamos que estudar todos os trilhos que apareciam e não eram poucos...

A determinada altura começamos a ouvir vo­zes. Não havia dúvidas que eram os turras !!!

Toda a malta se deitou, pois as vozes aproximavam-se cada vez mais de nós.

O furriel deu ordens rápidas:

- Meus senhores, não quero tiros a não ser que eles tenham armas. Vamos apanhá-los à mão. Só à minha ordem é que atacamos.

A cerca de quinze metros apareceram por entre a vegetação dois turras, um homem e um miúdo que continuavam a falar e a aproximarem-se de nós.

Não levavam armas.

Eu como toda a gente esperava a ordem de atacar.

Cada vez se aproximavam mais de nós... Era incrível que ainda não nos tivessem visto, pois ninguém se encontrava camuflado devidamente porque não tínhamos tido tempo para tal...

- AGARREM-NOS!!! AGARREM-ME ESSES GAJOS!!

O graúdo nem se mexera, ameaçado por 2 canos de G3, levantara os braços e pedia perdão.

O miúdo é que foi pior, metera-se na mata ...

Eu tinha corrido para junto do graúdo...

- Não matem! Não matem! Eu não fujo! Eu sou amigo da tropa! - lamentava-se o turra...

- Mas quem é que te disse que nós te vamos matar? - disse um soldado.

- Não tenhas medo - disse outro - agora que estás apanhado ninguém te faz mal.

- Então pá, quantos gajos é que vocês são? - perguntou o furriel.

- Há mais quatro que estão nas cubatas.

- Onde ficam as cubatas?

- Aqui perto.

- Os outros estão armados?

- Não, nós não temos armas.

Entretanto chegavam os outros soldados desanimados.

- Meu furriel, não conseguimos apanhar o miúdo - disse um. - O gajo meteu-se na mata e fugiu, o filho da puta!!!

- Não faz mal - disse o furriel, - este já está apanhado e vai-nos mostrar onde estão os outros. Não é assim, pá? - dirigindo-se para o turra.

O turra olhou pasmado na direção do guia Mabemba.

- Meu furriel! – exclamou o Mabemba, acabado de chegar - eu conheço este gajo! É o meu primo Grogel!

- Não me digas! - exclamou o furriel.

- Então Primo, como estás? - perguntou o guia com um sorriso nos lábios e abraçando o parente. - Então tu estás aqui nesta zona?

- Sim, viemos cá apanhar caça e mel.

- Bem, vamos apanhar os outros gajos - disse o furriel.

Notava-se em todos um misto de alegria e de expectativa. Alegria por já termos um turra apanhado e de expectativa pelo que ainda nos poderia suceder.

Pusemo-nos em progressão com o turra à frente para nos indicar o caminho das cubatas. Íamos à vontade, pois ele sabia onde ficavam, e já tínhamos a informação de que não tinham armas.

Pouco depois o turra fez sinal para pararmos, espreitou por entre os arbustos e apontando com o braço disse:

- Meu Comandante! As cubatas estão ali.

-Tu ficas aqui - ordenou o furriel a um soldado. - Ficas aqui a guardar o turra. Os outros vêm comigo!

0 furriel e alguns soldados avançaram lentamente até às cubatas ... mas voltaram logo...

- Pressentiram-nos. Anda cá, oh Grogel. Então onde estão os outros?

- Eu deixei-os aqui quando me ia lavar ao rio.

- Queres dizer que eles ouviram o barulho que nós fizemos? - perguntou o furriel.

- Sim. Fugiram porque era muito perto.

- É preciso ter azar, caramba!!!

Toda a malta se sentou desiludida.

- Então eram só seis ou eram mais? pergun­tou o furriel para o turra. Bem sabes que nós não te fazemos mal. Estás a ver o teu primo? O Zé Mabemba? Foi apanhado há duas se­manas e já está a ajudar a tropa. Não é , oh Zé?

- É sim, meu furriel, Sou bem tratado, a minha família está bem, temos muita comida, deram-me bastantes roupas...

- Então? Não dizes nada? - perguntou o furriel para o turra.

- Quem diz a verdade não merece castigo, respondeu o turra.

- Já te disse que ninguém te faz mal, pá!

- Chegou hoje um grupo de muita gente. Vieram do Lálá. São muitos. Trazem armas. Hoje de manhã estive com eles...

- Ena pá, até que enfim que disseste alguma coisa de jeito. Disseste que têm armas? Quantas?

- Não sei...

- Quantas mais ou menos? insistiu o furriel.

- Sim, vi muitas armas ...

- Tu disseste que eram muitas pessoas. Quantas mais ou menos?

- São muitas. São mais de cem.

- Cem???

- Sim. Mais ou menos cento e cinqüenta.

- Temos que mudar de táctica. Vamos pedir reforços à Companhia. Aonde é que eles estão?

- Se começarmos a andar agora, daqui a pou­co tempo estamos lá.

- Segundo me disse o meu primo devem estar junto do rio Mucala - cortou o guia.

- Bem, se é assim ainda estão longe. Pelo mapa são mais ou menos quatro quilómetros. Bem, vou comunicar à Companhia as informações que temos, para ver o que diz o Capitão - proferiu o furriel.

Puseram a antena no rádio e o furriel começou por chamar a Companhia, que, por mais que se tentasse, não ­ respondia.

- Que raio de pouca sorte, disse o furriel. Logo um grupo tão grande é que nos havia de aparecer pela frente. É que não temos homens suficientes para enfrentá- los, nem mate­rial que chegue. Que chatice! O melhor é pedirmos reforços à Companhia, porque se atacamos com o efectivo que temos ... ainda podemos ter um azar... Além disso, não sabemos quantas armas é que os turras têm. Os turras que estavam aqui já foram com toda a certeza avisar o numeroso grupo, que como é lógico já nos deve ter montado uma valente “recepção” ... Não, o melhor é pedir reforços e depois atacar em força.

Toda a malta concordou com o que o furriel tinha exposto.

A noite começava a cair. O furriel continuava ao rádio para ver se conseguia entrar em contacto com a Companhia.

Por fim lá conseguiu entrar em contacto com um posto da área.

- Okey, aqui fala posto móvel de Laranja.

- ...

- Toma nota: ....

- ....

- Logo que possível tenta o posto Laranja.

- ...

- Okey, estarei permanentemente no ar.

......................................................................

O grupo estava estacionado em posição de defesa... descansando... aproveitando o começo do escurecer... um ou outro "saboreando" uma refeição fria... aguardávamos a todo o momento instruções do Capitão... O Mabemba e o Grogel sentados um ao lado do outro mantinham um diálogo em dialeto que eu não entendia... aí o Mabemba depois de balbuciar umas expressões de espanto dirigiu-se para o furriel:

- Meu Comandante, dá-me licença?

- À vontade, Mabemba!

- O Grogel está-me a informar que no outro dia, há uns meses atrás, os guerrilheiros estavam emboscados para a tropa.

- Onde foi isso? - perguntou o furriel.

- Lembra quando o meu Comandante foi fazer aquela operação para os lados da Fazenda São João?

- Como hei-de lembrar? Faço tantas operações!!!

- Pois tinha um grupo de guerrilheiros do quartel da "Seção Engrácia" emboscados.

- Aonde?

- Já lá perto da Fazenda, mesmo. O Grogel disse que os guerrilheiros não abriram fogo porque viram o meu Comandante.

- Estás a brincar comigo, Mabemba?

- Deixa só o Grogel contar, meu Comandante - responde o Mabemba. - Oh Grogel, vem cá! - ordenou o Mabemba para o primo.

O Grogel levantou-se, mastigava ainda alguma coisa e estava com um pedaço de pão na mão, dirigiu-se para onde estavam o furriel e o Mabemba.

- Grogel, fala para o nosso Comandante o que me disseste - pediu o Mabemba.

- Falar o quê? - perguntou o Grogel em dúvida.

- Da emboscada, Grogel! Da emboscada dos guerrilheiros!

O Grogel ficou um tempo em silêncio, olhando para o Mabemba como quem pensa: "para quê tudo isso!!!"

- É, meu Comandante, um grupo de guerrilheiros do quartel da "Seção Engrácia" tinha feito uma emboscada para a tropa ... quando viu meu Comandante, não atacou. Foi ordem do comando.

- Estás a falar a sério? Como soubeste? - perguntou o furriel.

- Os comandos ordenaram não atacar a tropa do Gombe-ia-Muquiama - respondeu o Grogel.

- E como sabiam que era a tropa do Gombe? - perguntou o furriel intrigado.

- Porque viram o meu Comandante.

- E como sabiam que era eu?

- É o que só anda com soldados pretos e usa óculos verdes.

- E daí?

- É que o meu Comandante não mata a gente.

- E daí?

- Daí? Daí, como?

- Sim daí? Porque não atacam a tropa do Gombe?

- Porque a tropa do Gombe ... respeita a população... não mata as pessoas que estão na mata.

- A outra tropa também não mata - respondeu o furriel. - Só em caso de ataque ou emboscada.

- Sim, mas o meu Comandante é diferente!!!

- Diferente, merda nenhuma! Porra!!! Se me atacarem levam chumbo grosso também. Ou pensas que quê!!!

- Por causa disso é que não atacaram o meu Comandante.

- E daí? Deixaram-nos seguir e "foram embora para casa a cantar algum merengue"?

- Não, seguiram a tropa. Seguiram a tropa o tempo todo!!! Estiveram com as armas apontadas para meu Comandante várias vezes e para os outros soldados também. Só deixaram de seguir a tropa quando os "jipes" chegaram lá na picada da Cacamba e a tropa foi embora ...

Puta que pariu!!! Que sorte a nossa!!! - pensei eu - O gajo está a contar a verdade!!!


- A maioria da população já está cansada de estar escondida na mata, meu Comandante!

- Isso eu sei - respondeu o furriel - E então porque não se entregam? - perguntou.

- Estamos todos com muito medo!!!

- Medo de quê? Porra!!!

- De chegar na tropa e a tropa castigar!!!

- Mas tu sabes muito bem que a tropa não castiga quem se vai entregar ou quem é capturado. Olha aqui o teu primo Mabemba. Foi capturado, está com a família ... Hem, Mabemba?

- Comecei outra vida, meu Comandante - responde o Mabemba - A vida na mata é muito difícil. A tropa não larga mais esta zona. Todas as semanas a tropa está nesta zona. A preocupação é muita...

- E agora, Mabemba? cortou o furriel.

- Agora? Agora não, meu Comandante!!! sorri o Mabemba. - Fui bem recebido pelas autoridades, meu Comandante é meu amigo ...

- Podes ter a certeza que sim - cortou o furriel.

- Minha família está bem, minha esposa, meus filhos ... tenho amigos antigos na Sanzala que não via há muitos anos ... são meus amigos ... a tropa é minha amiga ... o Capitão do Pango conversou muito comigo ... o Comandante do Batalhão ...

... É ... a vida dá muitas voltas - pensei eu ... e continuei a pensar em tudo que ouvira!!! ...

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Ia noite alta. Ninguém dormia, pois o inimigo nunca avisa ... Lá para as 02H00 da manhã, começou-se a escutar uns estalidos vindos do outro lado da mata na direção do rio. Era alguém a andar no meio da noite dentro da mata.

- Meu Furriel, está a escutar? indagou o cabo Félix.

- Sim, porra! Eu não sou surdo! E pelos vistos devem ser bastantes. E não têm nem o cuidado de não fazer este barulho todo! Separem-se, protejam-se e fiquem atentos.

De repente, ouviu-se nitidamente o quebrar de um galho seco.

“Porra eles já estão perto!!!” pensei eu. Meu coração batia que nem sei o quê. Aliás, passei só a ouvir as batidas cada vez mais fortes e mais rápidas do meu coração. Cabeça bem rente ao chão. Não tinha nem cobertura de nada, não dera tempo. Estava ali praticamente em campo aberto. Se começasse o tiroteio, estava frito! No escuro da noite, não se via absolutamente nada!!! Escuro como breu!!! Estiquei o braço, para ver se estava perto de algum tronco de árvore que me pudesse proteger. Rastejei um pouco até conseguir a proteção de um tronco. E eu naquela mata, fazendo o quê? Olhava para a mata, mas via o quê? Nada!!! Dedo no gatilho, em posição de rajada. O primeiro filho da puta que me aparecesse na frente ia levar pelo menos uma rajada no bucho!!! De repente, do meu lado esquerdo o estrondo de uma G3 lançando um dilagrama.

Da mata veio a confirmação: rajadas de Kalashnikov e tiros dispersos de diversas Mauser. O dilagrama lançado segundos antes explodiu a uns 50 metros de distância. De imediato, gritaria do lado dos turras. Mais rajada de Kalashnikov e tiros de Mauser, de diversas direções.

A nossa tropa em silêncio e sem dar um tiro!!!

Depois do silêncio, após aqueles tiros todos dos turras, veio, talvez de 30 ou 40 metros, o eco da mata:

- Seus portugueses, Filhos da Puta!!! Vem para cá, se és homem!!! Está com medo? Vem para cá!!! Vem para cá, para ver como fica!!! Vai-te foder!!!

Porra!!! A voz do turra era assustadora!!! E avançar no escuro??? Sem ver nada pela frente???!!!

Do nosso lado, silêncio absoluto!!!

Mais um estrondo do lançamento de dilagrama. O silvo do dilagrama ia na direção do turra que tinha falado mais forte. Logo em seguida a explosão do dilagrama ecoando pela floresta...

... novamente silêncio ... a única coisa que ouvia era o meu coração a bater a mil ...

Depois de uns segundos:

- Acho que o turra perdeu a voz!!! disse o Graça Gomes com uma gargalhada.

- Porra!!! Fica calado - ordenou o furriel.

Já bem longe (seriam uns 80 metros de distância?), o mesmo turra gritou ainda:

- Seus Filhos da Puta!!! Seus portugueses da merda!!! Nós vai voltar!!! Vocês vão-se foder!!!

... depois só silêncio!!! E tudo escuro!!! E eu ali no meio da mata... ainda estava na mesma posição desde quando tudo aquilo tinha começado!!!

- Acho que agora eles foram embora - disse o furriel.

- Também com esses dilagramas!!! Quem quer ficar por aqui??? – disse o cabo Félix com uma risada!!!

- Eles chegaram perto!!! - disse um dos soldados.

- Eles souberam que a tropa estava aqui. Foram aqueles que estavam nas cubatas que foram avisar o grupo armado, disse o Mabemba.

- Aquele é o comandante “Folhas Caídas” da Seção Engrácia - informou o Grogel.

- Tens a certeza? - perguntou o furriel.

- É o “Folhas Caídas”. Eu conheço-o bem - confirmou o Mabemba.

- Mas a Seção Engrácia fica longe daqui. Porque é que ele está tão longe da zona dele? - perguntou o furriel.

- De vez em quando eles mudam de quartel, pois às vezes a tropa descobre o local e não os deixa mais em paz, disse o Mabemba.

- Vamos ter que sair daqui agora. Deixa primeiro entrar em contacto com a Companhia.

O Furriel não conseguiu contato com a companhia, mas apenas com o mesmo posto da área com o qual se tinha comunicado antes. O posto da área ficou a saber o que tinha acontecido e ficou incumbido de passar a informação para a Companhia. De manhã ir-se-ia tentar novamente comunicação com a Companhia. (Não ficávamos com o rádio permanentemente ligado, para poupar a bateria. Só ligávamos o rádio para transmissão imediata de mensagens.)

... e lá começamos nós a andar pela noite ... sem ver nada ... indo contra arbustos, ramos, espinhos ... guiando-nos pelo "ruído" do homem da frente ...

Depois de vinte minutos, paramos para descansar ...

... e a noite passou ... eram talvez umas 05H30... estava a começar a clarear... o furriel conseguira entrar em contato com a Companhia, que, nos códigos pré-determinados, foi posta ao corrente dos acontecimentos. Ainda consegui perceber algumas trocas de informações:

- Okey, correto e afirmativo. Necessito de reforços.

- ...

- Capitão disse okey?

- ...

- Correto. A minha localização é a seguinte (lá deu as coordenadas). Ficarei neste local até que chegue o grupo de reforço. Não te esqueças da senha!!! Confirma novamente, para não haver problemas!!!

- ...

- Okey. Por agora terminado.

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Isto agora havia de ser bonito!!! Com tropa de todos os lados!!!

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Lá para as 07H45 começamos a ouvir “movimentos estranhos” na direção da picada. Estávamos camuflados numa área, prontos para um eventual ataque dos turras, mas aguardando a chegada do grupo de reforço.

Pelo barulho vindo da mata, era muita gente andando ... e rápido ... sem medo de fazer barulho ...

O nosso rádio estava ligado e mantinha permanente contato com os postos da área, inclusive com o rádio do pessoal do reforço. Pelas informações, nossos reforços vinham comandados pelo Alferes Ribeiro.

Era o reforço que se aproximavam ou eram os turras? - pensei eu - Só podiam ser as nossas tropas! Os turras não iriam fazer esta barulhada toda na mata!!!

- Videira 10, vocês estão aonde? - perguntou o furriel pela rádio.

- Devemos estar a chegar ao ponto "X" - respondeu o rádio - era a voz do Alferes Ribeiro.

- Ribeiro, mande parar a tropa para ter a certeza que são vocês que estão a chegar ao ponto "X". É que estou a ouvir movimentos em direção à picada.

- Somos nós porra!!! Não atirem.

- Então manda parar a tropa, para eu ter a certeza!!!

... a barulhada da tropa lá em baixo parou ...

- Ribeiro, porra!!!! Vocês passaram a uns trinta metros de nós!!! Seguiram em frente!!! E tiveram sorte de não mandarmos fogo em cima de vocês!!! Só não atiramos porque estávamos na dúvida!!! - disse o furriel pela rádio.

- Onde vocês estão? - pergunta o Alferes Ribeiro pelo rádio.

- Vocês passaram por nós. Estamos no alto do morro do vosso lado esquerdo. Estamos deixando nossos postos. Vamos descer. A gente já se encontra aí em baixo, OK? - transmitiu o furriel

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Chegar ao local tinha sido fácil, pois trouxeram como guia um chefe GE do Pango.

- Então, pá? Tudo okey? - perguntou ao chegar o alferes para o furriel.

- Olha para aqui, Ribeiro - pediu o furriel, indicando o turra.

- Ahã! Cá está o homem! - exclamou o alferes.

- É guerrilheiro - informou o furriel.

- Então, pá, quantos gajos é que são? - perguntou o alferes ao turra.

- São cento e cinqüenta.

- Uhu! Cento e cinqüenta! ... Quantas armas?

-Não sei ao certo. Eu vi muitas armas.

O alferes e o furriel afastaram-se um pouco e o alferes expôs:

- As ordens que tenho são estas... O local está a ser cercado. Do Pango vêm dois grupos de combate. Do lado do rio Úcua vem o grupo de GEs. Assim a área fica­rá teoricamente cercada. A nossa missão é tapar-lhes a re­tirada deste lado, pois o grupo de GEs vai tentar penetrar na área. Acho que não haverá problemas da nossa parte. Ficaremos aqui prontos para o que der e vier!!! ...

O pessoal ficou disposto ao longo da área, em posição de defesa. Assim já estávamos mais seguros. Com este pessoal todo não podíamos temer o inimigo...

A rádio mantinha permanente ligação com os outros grupos.

A determinada altura ouviram-se tiros e rebentamento de granadas do nosso lado esquerdo. Bastante longe!!! Deviam ser os GE´s que já estavam a "trabalhar"! ­

Toda a malta se pôs pronta para qualquer eventualidade. A todo o momento poderia vir uma avalanche de gente a fugir e ninguém os reteria a não ser que... a única coisa era continuarmos bem alerta à espera dos acontecimen­tos...

Foi o rádio-operador que cortou aquele si­lêncio:

- Meu alferes, Os GE´s apanharam uma arma e alguns turras! Temos ordens para regressar. O grupo de GEs está a persegui-los. Os turras não estão a vir para esta direcção, pelo que podemos sair da área. ­

- São boas notícias em todos os aspectos, foi a resposta do alferes. Já podemos ir embora e os turras já ficaram sem uma arma.

A nossa missão acabava ali.

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Sentíamos-nos com o dever cumprido.

Eu estava cansado ... mas satisfeito.

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Haviam passado dois dias depois da operação à área do Rio Úcua. A vida no quartel não passava da rotina.

Eram quase 08H00. Praticamente todo o pessoal do destacamento estava na porta de armas a aguardar o hastear da bandeira, que por norma começava às 08H00 em ponto. A malta na brincadeira, uns a gozar os outros. Aquelas brincadeiras de quartel ... fazer o quê? ...

Vi o Mabemba a vir da Sanzala até à "porta de armas", chegando na entrada, tirou respeitosamente o chapéu, olhou para todos os soldados presentes e cumprimentou o furriel:

- Bom dia, Meu Comandante!

- Bom dia, Mabemba!!! E aí? Vais trabalhar na tonga hoje? – perguntou o furriel.

- Vou sim, meu Comandante! Mas antes tenho uma coisa para dizer para o meu Comandante!

- O que é Mabemba?

- Estou muito chateado!

- Chateado? O que é que houve?

- Estou muito chateado! Estou até com medo e vergonha de falar para o meu Comandante!

- O que é que há, Mabemba? Posso ajudar-te em alguma coisa?

- Já que tenho que falar, vou falar logo. O Grogel não dormiu em casa esta noite!

- Ele fugiu? - perguntou o Furriel para o Mabemba.

- Parece que fugiu sim, meu Comandante !!!

- E agora? Mabemba!!! Bem que eu estava desconfiado desse gajo!!! Fez-se muito amigo de repente!!! Estava tão bem na Sanzala da Paz!!! O que é que ele queria mais? Porra!!! ...

- Ele estava a queixar-se que deixou a mulher e os dois filhos na “mata”. Estava com muitas saudades da mulher e dos filhos! ... Eu tinha falado com ele, para ter juízo, mas parece que ele não ouviu as minhas palavras e os meus conselhos, meu Comandante!!!

- E a mulher dele está aonde? – indagou o furriel.

- A mulher dele, a Maria, ficou com aquele grupo armado do “Folhas Caídas” da Seção Engrácia.

- Mas os GEs no outro dia estiveram naquela área e os turras debandaram!!! Sabe-se lá aonde a esposa dele poderá estar!!!

- É, meu Comandante!!!

- E o Grogel levou alguma coisa dele? Roubou alguma coisa de alguém?

- Não, não roubou nada de ninguém, meu Comandante!!! Ele deixou tudo que era dele.

- Estranho!!! Quando foi a última vez que tu viste o Grogel?

- Ontem ele foi para a tonga comigo, para fazer a roça. Depois de chegarmos na tonga, passou um tempo, ele desapareceu. Chamei por ele, procurei, procurei, procurei ... nada !!! Passei o dia todo na tonga e voltei sem ele. Ele podia ter voltado para a Sanzala da Paz sem me ter falado. Quando cheguei na Sanzala da Paz, procurei por ele, mas nada. O Sebastião, o chefe das Milícias, perguntou por ele ontem quando cheguei à Sanzala. Falei que o Grogel tinha ficado no rio para tomar banho. Fiquei acordado a noite toda. Quase que nem dormi por causa dele. Hoje logo de manhã perguntei por ele a algumas mulheres, para ver se alguém o tinha visto. Mas ninguém o viu. Aí, pensei: “vou ter que falar para o meu Comandante!!!” ...

- Mabemba, deixa eu fazer o hastear da bandeira. Espera só um pouco, que a gente vai continuar esta conversa, está bem?

O hastear da Bandeira Nacional, com corneteiro e tudo, foi, como em todos os dias, um momento de civismo e patriotismo naquele povoado. A população tinha o maior respeito pela Bandeira Nacional!!! Vi o Mabemba, ex-1º Cabo do Exército Português, com uma comissão na Índia Portuguesa e outra em Cabinda, no período de 1958 a 1960, terrorista de 1961 à 1972, Chefe Activista do MPLA agora recapturado, em posição de sentido e fazendo continência enquanto a bandeira era hasteada. Estranhos pensamentos deveriam estar a emaranhar-se na cabeça do Mabemba. Na minha estavam. Era uma situação muito embaraçada a dele!!!

Hasteada a bandeira e terminada a ordem unida da praxe, o furriel convidou o Mabemba para tomar um café dentro do quartel.

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... E a vida continuava ... o dia passando ... sem novidades ... Tinha estado muito sol ... dia calorento ... pelo que se antevia uma chuva diluviana ao anoitecer !!!

Eram cerca de 17H00, eu estava na caserna descansando, com o rádio ligado, ouvindo a “Rádio Comercial” de Luanda. De repente a sentinela deu o aviso:

- Hei, malta!!! Está a vir um grande grupo de gente pela estrada da “Roça Maria do Céu”!!!

“Um grande grupo de gente? Que gente???” - pensei eu. Saltei da cama (a janela da caserna dava para o posto da sentinela) e da entrada do quartel pude-me aperceber que um aglomerado de gente, rindo e falando alto, era engrossado a todo o instante por mais gente ... Quando chegou em frente à primeira casa comercial da rua, a cerca de 100 metros do quartel, já eram mais de uma centena de pessoas, homens, mulheres e crianças!!! ...

... Gritos e gargalhadas de satisfação... Gente batendo palmas ... Gente gritando e chorando ...

- Que “porra” é esta?!!! – perguntou o furriel que acabara de chegar à “porta de armas”.

- Não sei, meu furriel – respondeu o sentinela. – Essa confusão começou lá a partir da “Roça Maria do Céu” e veio vindo, vindo ... e juntando mais gente, juntando mais gente... Agora é isso que o meu Furriel está a ver!!! ...

- O Mabemba está junto!!! – gritou o sentinela. – e o Chefe Sebastião também!!! ...

Quando chegaram em frente ao quartel já era uma multidão inumerável de gente, que dava gritos de satisfação, ria, dava sonoras gargalhadas, alguns dançavam ... aí é que eu vi o Mabemba com a catana para o alto ... e ao lado dele o Grogel com um miúdo no colo!!! Era o Grogel mesmo? Arregalei os olhos!!! Era verdade o que estava vendo???

De repente silêncio!!! ... o Mabemba, o Grogel com uma criança no colo, e ao lado dele uma mulher jovem, também com um bebezinho no colo, entraram pela “porta de armas”.

Todo o destacamento estava na “porta de armas” ... e a multidão fez silêncio !!! ...

O furriel estava de “boca-aberta”, deu três passos e abraçou o Grogel!!! E depois o Mabemba!!!...

... e a multidão irrompeu numa festa ... de gritaria ... de gargalhadas ... e de felicidade!!!

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O Grogel tinha ido à mata buscar a esposa e seus dois filhos!!! ... e agora podia viver na PAZ e em LIBERDADE !!!...


TODOS ERAM BEM-VINDOS E ACEITES PELAS AUTORIDADES E POPULAÇÕES LOCAIS, E OS SEUS DIREITOS E LIBERDADES COMO CIDADÃOS ERAM RESTABELECIDOS DE IMEDIATO ( SEM PRESÍDIOS, SEM CLAUSURAS, SEM CASTIGOS, SEM MAUS TRATOS, SEM REPREENSÕES - MAS COM TODO O RESPEITO!!! E DIGINIDADE HUMANA!!! ) DE MODO A PODEREM INICIAR UMA VIDA COM SENTIDO, AUTO-CONFIANÇA E AUTO-ESTIMA.

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O pessoal do Destacamento, numa tarde ensolarada, sabe-se lá em que dia.
Em pé da esquerda para a direita: soldado não identificado (por não aparecer o rosto), Quiaia, Furriel, João Domingos, Antunes, João (dos muceques de Luanda), Vila Nova e o 1º cabo Jobino Félix na primeira fila: Azevedo, corneteiro, AP, China, X, Y, Alexandre e o Graça Gomes X e Y - soldados "emprestados" da Companhia (não pertenciam ao efetivo do Destacamento), cujos nomes já fugiram da memória ...
Observe à frente a macaquinha "Kika" - nossa mascote.

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O hastear da Bandeira Nacional, com corneteiro e tudo, foi em todos os dias um momento de civismo e patriotismo naquele povoado. A população tinha o maior respeito pela Bandeira Nacional. Observe no canto inferior esquerdo da foto uma macaquinha, era a nossa mascote sem coleira e perto da floresta.


FACTO PITURESCO "A ONÇA"

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Numa certa tarde, elementos da população vieram ao Destacamento informar que uma onça havia caído numa armadilha de laço. "Era animal perigoso, pois podia atacar alguém da população!" ...

Onde está essa onça? – perguntou o furriel.
- Está lá nas pedras do Forte do Gombe-ia-Muquiama – responde um.
- Mas ela ficou presa como?

- Ela está presa numa armadilha feita de laço – respondeu outro.
Bem, e lá fomos nós ... ver a onça...
Para encurtar a conversa, a onça foi abatida com um tiro de Mauser na cabeça ...
Trouxemo-la para o destacamento, tiramos a pele, esticámo-la numa parede ... e a carne foi levada pelos elementos da população ... para uma "festa" ...
... era uma pele perfeita ... sem nenhuma perfuração ... devia dar um belo “tapete” ...
... que nada ... no dia seguinte: “Cadê a pele da onça?”
... tinha sido comida pelos cachorros do povoado ... nem pêlo deixaram!!! ...
 
 
 

 


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