Dia
23 e 24 de maio de 1972
Era dia de coluna.
Esperávamos a todo o momento
a ordem do furriel para arrancar para a operação...
A coluna havia chegado comandada
pelo Capitão que logo havia chamado o furriel.
Vi os dois manterem um diálogo
longo em frente à "porta de armas". Por
fim o furriel fez uns rabiscos no chão e pediu ao
capitão para retirar-se.
- Bem rapazes, exclamou o furriel
para a guarnição do Destacamento que estava em formatura,
os que estão designados para operação vão na “Mercedes”
da frente. Cabo Félix!!! Manda destroçar a guarnição!!!
......................................................................
No rio Caoambala as viaturas
pararam para descermos. As viaturas continuariam a
viagem em direção ao Úcua ... ao passarem por nós
a tropa em cima das viaturas nos desejava boa sorte
... e por fim as viaturas acabaram de sumir depois
da curva ...
... e agora só estava eu, o
furriel, oito soldados, o José Mabemba e dois carregadores
...
- Cheguem-se para ao pé de
mim. O plano de hoje é o seguinte: vamos descer o
Caoambala até ao rio Úcua... Atravessamos o rio Úcua
e procuraremos vestígios de turras. Temos informações
concretas de que existe um pequeno número calculado
em cerca de seis turras ...
- Meu furriel, é só apanhar
seis turras e vir embora? - “brincou” um soldado com
uma risadinha de sacana.
- E depois? Achas que é difícil?
- Não, antes pelo contrário.
Pelos vistos não é assim tão difícil apanhar seis
turras. A não ser que eles tenham armas...
- Bem, o número de turras não
nos aflige, até porque nós somos oito e portanto ainda
ficarão dois espectadores... Não acham?
Houve gargalhada geral.
Entramos na mata e começamos
a longa marcha. De hora a hora parávamos para descansar.
Quando chegamos ao rio Úcua estivemos parados quase
uma hora para comermos alguma coisa e descansar.
Depois de termos atravessado
o rio Úcua foram logo descobertos inúmeros trilhos,
dos quais um se sobressaía por ser o mais utilizado,
pelo que foi esse que seguimos.
À frente ia o José Mabemba,
ex-turra apanhado à cerca de quinze dias, pelo que
íamos relativamente à vontade, pois ele conhecia todas
as artimanhas da mata.
A progressão era relativamente
lenta, pois tínhamos que estudar todos os trilhos
que apareciam e não eram poucos...
A determinada altura começamos
a ouvir vozes. Não havia dúvidas que eram os turras
!!!
Toda a malta se deitou, pois
as vozes aproximavam-se cada vez mais de nós.
O furriel deu ordens rápidas:
- Meus senhores, não quero
tiros a não ser que eles tenham armas. Vamos apanhá-los
à mão. Só à minha ordem é que atacamos.
A cerca de quinze metros apareceram
por entre a vegetação dois turras, um homem e um miúdo
que continuavam a falar e a aproximarem-se de nós.
Não levavam armas.
Eu como toda a gente esperava
a ordem de atacar.
Cada vez se aproximavam mais
de nós... Era incrível que ainda não nos tivessem
visto, pois ninguém se encontrava camuflado devidamente
porque não tínhamos tido tempo para tal...
- AGARREM-NOS!!! AGARREM-ME
ESSES GAJOS!!
O graúdo nem se mexera, ameaçado
por 2 canos de G3, levantara os braços e pedia perdão.
O miúdo é que foi pior, metera-se
na mata ...
Eu tinha corrido para junto
do graúdo...
- Não matem! Não matem! Eu
não fujo! Eu sou amigo da tropa! - lamentava-se o
turra...
- Mas quem é que te disse que
nós te vamos matar? - disse um soldado.
- Não tenhas medo - disse outro
- agora que estás apanhado ninguém te faz mal.
- Então pá, quantos gajos é
que vocês são? - perguntou o furriel.
- Há mais quatro que estão
nas cubatas.
- Onde ficam as cubatas?
- Aqui perto.
- Os outros estão armados?
- Não, nós não temos armas.
Entretanto chegavam os outros
soldados desanimados.
- Meu furriel, não conseguimos
apanhar o miúdo - disse um. - O gajo meteu-se na mata
e fugiu, o filho da puta!!!
- Não faz mal - disse o furriel,
- este já está apanhado e vai-nos mostrar onde estão
os outros. Não é assim, pá? - dirigindo-se para o
turra.
O turra olhou pasmado na direção
do guia Mabemba.
- Meu furriel! – exclamou o
Mabemba, acabado de chegar - eu conheço este gajo!
É o meu primo Grogel!
- Não me digas! - exclamou
o furriel.
- Então Primo, como estás?
- perguntou o guia com um sorriso nos lábios e abraçando
o parente. - Então tu estás aqui nesta zona?
- Sim, viemos cá apanhar caça
e mel.
- Bem, vamos apanhar os outros
gajos - disse o furriel.
Notava-se em todos um misto
de alegria e de expectativa. Alegria por já termos
um turra apanhado e de expectativa pelo que ainda
nos poderia suceder.
Pusemo-nos em progressão com
o turra à frente para nos indicar o caminho das cubatas.
Íamos à vontade, pois ele sabia onde ficavam, e já
tínhamos a informação de que não tinham armas.
Pouco depois o turra fez sinal
para pararmos, espreitou por entre os arbustos e apontando
com o braço disse:
- Meu Comandante! As cubatas
estão ali.
-Tu ficas aqui - ordenou o
furriel a um soldado. - Ficas aqui a guardar o turra.
Os outros vêm comigo!
0 furriel e alguns soldados
avançaram lentamente até às cubatas ... mas voltaram
logo...
- Pressentiram-nos. Anda cá,
oh Grogel. Então onde estão os outros?
- Eu deixei-os aqui quando
me ia lavar ao rio.
- Queres dizer que eles ouviram
o barulho que nós fizemos? - perguntou o furriel.
- Sim. Fugiram porque era muito
perto.
- É preciso ter azar, caramba!!!
Toda a malta se sentou desiludida.
- Então eram só seis ou eram
mais? perguntou o furriel para o turra. Bem sabes
que nós não te fazemos mal. Estás a ver o teu primo?
O Zé Mabemba? Foi apanhado há duas semanas e já está
a ajudar a tropa. Não é , oh Zé?
- É sim, meu furriel, Sou bem
tratado, a minha família está bem, temos muita comida,
deram-me bastantes roupas...
- Então? Não dizes nada? -
perguntou o furriel para o turra.
- Quem diz a verdade não merece
castigo, respondeu o turra.
- Já te disse que ninguém te
faz mal, pá!
- Chegou hoje um grupo de muita
gente. Vieram do Lálá. São muitos. Trazem armas. Hoje
de manhã estive com eles...
- Ena pá, até que enfim que
disseste alguma coisa de jeito. Disseste que têm armas?
Quantas?
- Não sei...
- Quantas mais ou menos? insistiu
o furriel.
- Sim, vi muitas armas ...
- Tu disseste que eram muitas
pessoas. Quantas mais ou menos?
- São muitas. São mais de cem.
- Cem???
- Sim. Mais ou menos cento
e cinqüenta.
- Temos que mudar de táctica.
Vamos pedir reforços à Companhia. Aonde é que eles
estão?
- Se começarmos a andar agora,
daqui a pouco tempo estamos lá.
- Segundo me disse o meu primo
devem estar junto do rio Mucala - cortou o guia.
- Bem, se é assim ainda estão
longe. Pelo mapa são mais ou menos quatro quilómetros.
Bem, vou comunicar à Companhia as informações que
temos, para ver o que diz o Capitão - proferiu o furriel.
Puseram a antena no rádio e
o furriel começou por chamar a Companhia, que, por
mais que se tentasse, não respondia.
- Que raio de pouca sorte,
disse o furriel. Logo um grupo tão grande é que nos
havia de aparecer pela frente. É que não temos homens
suficientes para enfrentá- los, nem material que
chegue. Que chatice! O melhor é pedirmos reforços
à Companhia, porque se atacamos com o efectivo que
temos ... ainda podemos ter um azar... Além disso,
não sabemos quantas armas é que os turras têm. Os
turras que estavam aqui já foram com toda a certeza
avisar o numeroso grupo, que como é lógico já nos
deve ter montado uma valente “recepção” ... Não, o
melhor é pedir reforços e depois atacar em força.
Toda a malta concordou com
o que o furriel tinha exposto.
A noite começava a cair. O
furriel continuava ao rádio para ver se conseguia
entrar em contacto com a Companhia.
Por fim lá conseguiu entrar
em contacto com um posto da área.
- Okey, aqui fala posto móvel
de Laranja.
- ...
- Toma nota: ....
- ....
- Logo que possível tenta o
posto Laranja.
- ...
- Okey, estarei permanentemente
no ar.
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O grupo estava estacionado
em posição de defesa... descansando... aproveitando
o começo do escurecer... um ou outro "saboreando"
uma refeição fria... aguardávamos a todo o momento
instruções do Capitão... O Mabemba e o Grogel sentados
um ao lado do outro mantinham um diálogo em dialeto
que eu não entendia... aí o Mabemba depois de balbuciar
umas expressões de espanto dirigiu-se para o furriel:
- Meu Comandante, dá-me licença?
- À vontade, Mabemba!
- O Grogel está-me a informar
que no outro dia, há uns meses atrás, os guerrilheiros
estavam emboscados para a tropa.
- Onde foi isso? - perguntou
o furriel.
- Lembra quando o meu Comandante
foi fazer aquela operação para os lados da Fazenda
São João?
- Como hei-de lembrar? Faço
tantas operações!!!
- Pois tinha um grupo de guerrilheiros
do quartel da "Seção Engrácia" emboscados.
- Aonde?
- Já lá perto da Fazenda, mesmo.
O Grogel disse que os guerrilheiros não abriram fogo
porque viram o meu Comandante.
- Estás a brincar comigo, Mabemba?
- Deixa só o Grogel contar,
meu Comandante - responde o Mabemba. - Oh Grogel,
vem cá! - ordenou o Mabemba para o primo.
O Grogel levantou-se, mastigava
ainda alguma coisa e estava com um pedaço de pão na
mão, dirigiu-se para onde estavam o furriel e o Mabemba.
- Grogel, fala para o nosso
Comandante o que me disseste - pediu o Mabemba.
- Falar o quê? - perguntou
o Grogel em dúvida.
- Da emboscada, Grogel! Da
emboscada dos guerrilheiros!
O Grogel ficou um tempo em
silêncio, olhando para o Mabemba como quem pensa:
"para quê tudo isso!!!"
- É, meu Comandante, um grupo
de guerrilheiros do quartel da "Seção Engrácia"
tinha feito uma emboscada para a tropa ... quando
viu meu Comandante, não atacou. Foi ordem do comando.
- Estás a falar a sério? Como
soubeste? - perguntou o furriel.
- Os comandos ordenaram não
atacar a tropa do Gombe-ia-Muquiama - respondeu o
Grogel.
- E como sabiam que era a tropa
do Gombe? - perguntou o furriel intrigado.
- Porque viram o meu Comandante.
- E como sabiam que era eu?
- É o que só anda com soldados
pretos e usa óculos verdes.
- E daí?
- É que o meu Comandante não
mata a gente.
- E daí?
- Daí? Daí, como?
- Sim daí? Porque não atacam
a tropa do Gombe?
- Porque a tropa do Gombe ...
respeita a população... não mata as pessoas que estão
na mata.
- A outra tropa também não
mata - respondeu o furriel. - Só em caso de ataque
ou emboscada.
- Sim, mas o meu Comandante
é diferente!!!
- Diferente, merda nenhuma!
Porra!!! Se me atacarem levam chumbo grosso também.
Ou pensas que quê!!!
- Por causa disso é que não
atacaram o meu Comandante.
- E daí? Deixaram-nos seguir
e "foram embora para casa a cantar algum merengue"?
- Não, seguiram a tropa. Seguiram
a tropa o tempo todo!!! Estiveram com as armas apontadas
para meu Comandante várias vezes e para os outros
soldados também. Só deixaram de seguir a tropa quando
os "jipes" chegaram lá na picada da Cacamba
e a tropa foi embora ...
Puta que pariu!!! Que sorte
a nossa!!! - pensei eu - O gajo está a contar a verdade!!!
- A maioria da população já está cansada de estar
escondida na mata, meu Comandante!
- Isso eu sei - respondeu o
furriel - E então porque não se entregam? - perguntou.
- Estamos todos com muito medo!!!
- Medo de quê? Porra!!!
- De chegar na tropa e a tropa
castigar!!!
- Mas tu sabes muito bem que
a tropa não castiga quem se vai entregar ou quem é
capturado. Olha aqui o teu primo Mabemba. Foi capturado,
está com a família ... Hem, Mabemba?
- Comecei outra vida, meu Comandante
- responde o Mabemba - A vida na mata é muito difícil.
A tropa não larga mais esta zona. Todas as semanas
a tropa está nesta zona. A preocupação é muita...
- E agora, Mabemba? cortou
o furriel.
- Agora? Agora não, meu Comandante!!!
sorri o Mabemba. - Fui bem recebido pelas autoridades,
meu Comandante é meu amigo ...
- Podes ter a certeza que sim
- cortou o furriel.
- Minha família está bem, minha
esposa, meus filhos ... tenho amigos antigos na Sanzala
que não via há muitos anos ... são meus amigos ...
a tropa é minha amiga ... o Capitão do Pango conversou
muito comigo ... o Comandante do Batalhão ...
... É ... a vida dá muitas
voltas - pensei eu ... e continuei a pensar em tudo
que ouvira!!! ...
......................................................................
Ia noite alta. Ninguém dormia,
pois o inimigo nunca avisa ... Lá para as 02H00 da
manhã, começou-se a escutar uns estalidos vindos do
outro lado da mata na direção do rio. Era alguém a
andar no meio da noite dentro da mata.
- Meu Furriel, está a escutar?
indagou o cabo Félix.
- Sim, porra! Eu não sou surdo!
E pelos vistos devem ser bastantes. E não têm nem
o cuidado de não fazer este barulho todo! Separem-se,
protejam-se e fiquem atentos.
De repente, ouviu-se nitidamente
o quebrar de um galho seco.
“Porra eles já estão perto!!!”
pensei eu. Meu coração batia que nem sei o quê. Aliás,
passei só a ouvir as batidas cada vez mais fortes
e mais rápidas do meu coração. Cabeça bem rente ao
chão. Não tinha nem cobertura de nada, não dera tempo.
Estava ali praticamente em campo aberto. Se começasse
o tiroteio, estava frito! No escuro da noite, não
se via absolutamente nada!!! Escuro como breu!!! Estiquei
o braço, para ver se estava perto de algum tronco
de árvore que me pudesse proteger. Rastejei um pouco
até conseguir a proteção de um tronco. E eu naquela
mata, fazendo o quê? Olhava para a mata, mas via o
quê? Nada!!! Dedo no gatilho, em posição de rajada.
O primeiro filho da puta que me aparecesse na frente
ia levar pelo menos uma rajada no bucho!!! De repente,
do meu lado esquerdo o estrondo de uma G3 lançando
um dilagrama.
Da mata veio a confirmação:
rajadas de Kalashnikov e tiros dispersos de diversas
Mauser. O dilagrama lançado segundos antes explodiu
a uns 50 metros de distância. De imediato, gritaria
do lado dos turras. Mais rajada de Kalashnikov e tiros
de Mauser, de diversas direções.
A nossa tropa em silêncio e
sem dar um tiro!!!
Depois do silêncio, após aqueles
tiros todos dos turras, veio, talvez de 30 ou 40 metros,
o eco da mata:
- Seus portugueses, Filhos
da Puta!!! Vem para cá, se és homem!!! Está com medo?
Vem para cá!!! Vem para cá, para ver como fica!!!
Vai-te foder!!!
Porra!!! A voz do turra era
assustadora!!! E avançar no escuro??? Sem ver nada
pela frente???!!!
Do nosso lado, silêncio absoluto!!!
Mais um estrondo do lançamento
de dilagrama. O silvo do dilagrama ia na direção do
turra que tinha falado mais forte. Logo em seguida
a explosão do dilagrama ecoando pela floresta...
... novamente silêncio ...
a única coisa que ouvia era o meu coração a bater
a mil ...
Depois de uns segundos:
- Acho que o turra perdeu a
voz!!! disse o Graça Gomes com uma gargalhada.
- Porra!!! Fica calado - ordenou
o furriel.
Já bem longe (seriam uns 80
metros de distância?), o mesmo turra gritou ainda:
- Seus Filhos da Puta!!! Seus
portugueses da merda!!! Nós vai voltar!!! Vocês vão-se
foder!!!
... depois só silêncio!!! E
tudo escuro!!! E eu ali no meio da mata... ainda estava
na mesma posição desde quando tudo aquilo tinha começado!!!
- Acho que agora eles foram
embora - disse o furriel.
- Também com esses dilagramas!!!
Quem quer ficar por aqui??? – disse o cabo Félix com
uma risada!!!
- Eles chegaram perto!!! -
disse um dos soldados.
- Eles souberam que a tropa
estava aqui. Foram aqueles que estavam nas cubatas
que foram avisar o grupo armado, disse o Mabemba.
- Aquele é o comandante “Folhas
Caídas” da Seção Engrácia - informou o Grogel.
- Tens a certeza? - perguntou
o furriel.
- É o “Folhas Caídas”. Eu conheço-o
bem - confirmou o Mabemba.
- Mas a Seção Engrácia fica
longe daqui. Porque é que ele está tão longe da zona
dele? - perguntou o furriel.
- De vez em quando eles mudam
de quartel, pois às vezes a tropa descobre o local
e não os deixa mais em paz, disse o Mabemba.
- Vamos ter que sair daqui
agora. Deixa primeiro entrar em contacto com a Companhia.
O Furriel não conseguiu contato
com a companhia, mas apenas com o mesmo posto da área
com o qual se tinha comunicado antes. O posto da área
ficou a saber o que tinha acontecido e ficou incumbido
de passar a informação para a Companhia. De manhã
ir-se-ia tentar novamente comunicação com a Companhia.
(Não ficávamos com o rádio permanentemente ligado,
para poupar a bateria. Só ligávamos o rádio para transmissão
imediata de mensagens.)
... e lá começamos nós a andar
pela noite ... sem ver nada ... indo contra arbustos,
ramos, espinhos ... guiando-nos pelo "ruído"
do homem da frente ...
Depois de vinte minutos, paramos
para descansar ...
... e a noite passou ... eram
talvez umas 05H30... estava a começar a clarear...
o furriel conseguira entrar em contato com a Companhia,
que, nos códigos pré-determinados, foi posta ao corrente
dos acontecimentos. Ainda consegui perceber algumas
trocas de informações:
- Okey, correto e afirmativo.
Necessito de reforços.
- ...
- Capitão disse okey?
- ...
- Correto. A minha localização
é a seguinte (lá deu as coordenadas). Ficarei neste
local até que chegue o grupo de reforço. Não te esqueças
da senha!!! Confirma novamente, para não haver problemas!!!
- ...
- Okey. Por agora terminado.
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Isto agora havia de ser bonito!!!
Com tropa de todos os lados!!!
......................................................................
Lá para as 07H45 começamos
a ouvir “movimentos estranhos” na direção da picada.
Estávamos camuflados numa área, prontos para um eventual
ataque dos turras, mas aguardando a chegada do grupo
de reforço.
Pelo barulho vindo da mata,
era muita gente andando ... e rápido ... sem medo
de fazer barulho ...
O nosso rádio estava ligado
e mantinha permanente contato com os postos da área,
inclusive com o rádio do pessoal do reforço. Pelas
informações, nossos reforços vinham comandados pelo
Alferes Ribeiro.
Era o reforço que se aproximavam
ou eram os turras? - pensei eu - Só podiam ser as
nossas tropas! Os turras não iriam fazer esta barulhada
toda na mata!!!
- Videira 10, vocês estão aonde?
- perguntou o furriel pela rádio.
- Devemos estar a chegar ao
ponto "X" - respondeu o rádio - era a voz
do Alferes Ribeiro.
- Ribeiro, mande parar a tropa
para ter a certeza que são vocês que estão a chegar
ao ponto "X". É que estou a ouvir movimentos
em direção à picada.
- Somos nós porra!!! Não atirem.
- Então manda parar a tropa,
para eu ter a certeza!!!
... a barulhada da tropa lá
em baixo parou ...
- Ribeiro, porra!!!! Vocês
passaram a uns trinta metros de nós!!! Seguiram em
frente!!! E tiveram sorte de não mandarmos fogo em
cima de vocês!!! Só não atiramos porque estávamos
na dúvida!!! - disse o furriel pela rádio.
- Onde vocês estão? - pergunta
o Alferes Ribeiro pelo rádio.
- Vocês passaram por nós. Estamos
no alto do morro do vosso lado esquerdo. Estamos deixando
nossos postos. Vamos descer. A gente já se encontra
aí em baixo, OK? - transmitiu o furriel
......................................................................
Chegar ao local tinha sido fácil, pois trouxeram como
guia um chefe GE do Pango.
- Então, pá? Tudo okey? - perguntou
ao chegar o alferes para o furriel.
- Olha para aqui, Ribeiro -
pediu o furriel, indicando o turra.
- Ahã! Cá está o homem! - exclamou
o alferes.
- É guerrilheiro - informou
o furriel.
- Então, pá, quantos gajos
é que são? - perguntou o alferes ao turra.
- São cento e cinqüenta.
- Uhu! Cento e cinqüenta! ...
Quantas armas?
-Não sei ao certo. Eu vi muitas
armas.
O alferes e o furriel afastaram-se
um pouco e o alferes expôs:
- As ordens que tenho são estas...
O local está a ser cercado. Do Pango vêm dois grupos
de combate. Do lado do rio Úcua vem o grupo de GEs.
Assim a área ficará teoricamente cercada. A nossa
missão é tapar-lhes a retirada deste lado, pois o
grupo de GEs vai tentar penetrar na área. Acho que
não haverá problemas da nossa parte. Ficaremos aqui
prontos para o que der e vier!!! ...
O pessoal ficou disposto ao
longo da área, em posição de defesa. Assim já estávamos
mais seguros. Com este pessoal todo não podíamos temer
o inimigo...
A rádio mantinha permanente
ligação com os outros grupos.
A determinada altura ouviram-se
tiros e rebentamento de granadas do nosso lado esquerdo.
Bastante longe!!! Deviam ser os GE´s que já estavam
a "trabalhar"!
Toda a malta se pôs pronta
para qualquer eventualidade. A todo o momento poderia
vir uma avalanche de gente a fugir e ninguém os reteria
a não ser que... a única coisa era continuarmos bem
alerta à espera dos acontecimentos...
Foi o rádio-operador que cortou
aquele silêncio:
- Meu alferes, Os GE´s apanharam
uma arma e alguns turras! Temos ordens para regressar.
O grupo de GEs está a persegui-los. Os turras não
estão a vir para esta direcção, pelo que podemos sair
da área.
- São boas notícias em todos
os aspectos, foi a resposta do alferes. Já podemos
ir embora e os turras já ficaram sem uma arma.
A nossa missão acabava ali.
......................................................................
Sentíamos-nos com o dever cumprido.
Eu estava cansado ... mas satisfeito.
......................................................................
Haviam passado dois dias depois
da operação à área do Rio Úcua. A vida no quartel
não passava da rotina.
Eram quase 08H00. Praticamente
todo o pessoal do destacamento estava na porta de
armas a aguardar o hastear da bandeira, que por norma
começava às 08H00 em ponto. A malta na brincadeira,
uns a gozar os outros. Aquelas brincadeiras de quartel
... fazer o quê? ...
Vi o Mabemba a vir da Sanzala
até à "porta de armas", chegando na entrada,
tirou respeitosamente o chapéu, olhou para todos os
soldados presentes e cumprimentou o furriel:
- Bom dia, Meu Comandante!
- Bom dia, Mabemba!!! E aí?
Vais trabalhar na tonga hoje? – perguntou o furriel.
- Vou sim, meu Comandante!
Mas antes tenho uma coisa para dizer para o meu Comandante!
- O que é Mabemba?
- Estou muito chateado!
- Chateado? O que é que houve?
- Estou muito chateado! Estou
até com medo e vergonha de falar para o meu Comandante!
- O que é que há, Mabemba?
Posso ajudar-te em alguma coisa?
- Já que tenho que falar, vou
falar logo. O Grogel não dormiu em casa esta noite!
- Ele fugiu? - perguntou o
Furriel para o Mabemba.
- Parece que fugiu sim, meu
Comandante !!!
- E agora? Mabemba!!! Bem que
eu estava desconfiado desse gajo!!! Fez-se muito amigo
de repente!!! Estava tão bem na Sanzala da Paz!!!
O que é que ele queria mais? Porra!!! ...
- Ele estava a queixar-se que
deixou a mulher e os dois filhos na “mata”. Estava
com muitas saudades da mulher e dos filhos! ... Eu
tinha falado com ele, para ter juízo, mas parece que
ele não ouviu as minhas palavras e os meus conselhos,
meu Comandante!!!
- E a mulher dele está aonde?
– indagou o furriel.
- A mulher dele, a Maria, ficou
com aquele grupo armado do “Folhas Caídas” da Seção
Engrácia.
- Mas os GEs no outro dia estiveram
naquela área e os turras debandaram!!! Sabe-se lá
aonde a esposa dele poderá estar!!!
- É, meu Comandante!!!
- E o Grogel levou alguma coisa
dele? Roubou alguma coisa de alguém?
- Não, não roubou nada de ninguém,
meu Comandante!!! Ele deixou tudo que era dele.
- Estranho!!! Quando foi a
última vez que tu viste o Grogel?
- Ontem ele foi para a tonga
comigo, para fazer a roça. Depois de chegarmos na
tonga, passou um tempo, ele desapareceu. Chamei por
ele, procurei, procurei, procurei ... nada !!! Passei
o dia todo na tonga e voltei sem ele. Ele podia ter
voltado para a Sanzala da Paz sem me ter falado. Quando
cheguei na Sanzala da Paz, procurei por ele, mas nada.
O Sebastião, o chefe das Milícias, perguntou por ele
ontem quando cheguei à Sanzala. Falei que o Grogel
tinha ficado no rio para tomar banho. Fiquei acordado
a noite toda. Quase que nem dormi por causa dele.
Hoje logo de manhã perguntei por ele a algumas mulheres,
para ver se alguém o tinha visto. Mas ninguém o viu.
Aí, pensei: “vou ter que falar para o meu Comandante!!!”
...
- Mabemba, deixa eu fazer o
hastear da bandeira. Espera só um pouco, que a gente
vai continuar esta conversa, está bem?
O hastear da Bandeira Nacional,
com corneteiro e tudo, foi, como em todos os dias,
um momento de civismo e patriotismo naquele povoado.
A população tinha o maior respeito pela Bandeira Nacional!!!
Vi o Mabemba, ex-1º Cabo do Exército Português, com
uma comissão na Índia Portuguesa e outra em Cabinda,
no período de 1958 a 1960, terrorista de 1961 à 1972,
Chefe Activista do MPLA agora recapturado, em posição
de sentido e fazendo continência enquanto a bandeira
era hasteada. Estranhos pensamentos deveriam estar
a emaranhar-se na cabeça do Mabemba. Na minha estavam.
Era uma situação muito embaraçada a dele!!!
Hasteada a bandeira e terminada
a ordem unida da praxe, o furriel convidou o Mabemba
para tomar um café dentro do quartel.
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... E a vida continuava ...
o dia passando ... sem novidades ... Tinha estado
muito sol ... dia calorento ... pelo que se antevia
uma chuva diluviana ao anoitecer !!!
Eram cerca de 17H00, eu estava
na caserna descansando, com o rádio ligado, ouvindo
a “Rádio Comercial” de Luanda. De repente a sentinela
deu o aviso:
- Hei, malta!!! Está a vir
um grande grupo de gente pela estrada da “Roça Maria
do Céu”!!!
“Um grande grupo de gente?
Que gente???” - pensei eu. Saltei da cama (a janela
da caserna dava para o posto da sentinela) e da entrada
do quartel pude-me aperceber que um aglomerado de
gente, rindo e falando alto, era engrossado a todo
o instante por mais gente ... Quando chegou em frente
à primeira casa comercial da rua, a cerca de 100 metros
do quartel, já eram mais de uma centena de pessoas,
homens, mulheres e crianças!!! ...
... Gritos e gargalhadas de
satisfação... Gente batendo palmas ... Gente gritando
e chorando ...
- Que “porra” é esta?!!! –
perguntou o furriel que acabara de chegar à “porta
de armas”.
- Não sei, meu furriel – respondeu
o sentinela. – Essa confusão começou lá a partir da
“Roça Maria do Céu” e veio vindo, vindo ... e juntando
mais gente, juntando mais gente... Agora é isso que
o meu Furriel está a ver!!! ...
- O Mabemba está junto!!! –
gritou o sentinela. – e o Chefe Sebastião também!!!
...
Quando chegaram em frente ao
quartel já era uma multidão inumerável de gente, que
dava gritos de satisfação, ria, dava sonoras gargalhadas,
alguns dançavam ... aí é que eu vi o Mabemba com a
catana para o alto ... e ao lado dele o Grogel com
um miúdo no colo!!! Era o Grogel mesmo? Arregalei
os olhos!!! Era verdade o que estava vendo???
De repente silêncio!!! ...
o Mabemba, o Grogel com uma criança no colo, e ao
lado dele uma mulher jovem, também com um bebezinho
no colo, entraram pela “porta de armas”.
Todo o destacamento estava
na “porta de armas” ... e a multidão fez silêncio
!!! ...
O furriel estava de “boca-aberta”,
deu três passos e abraçou o Grogel!!! E depois o Mabemba!!!...
... e a multidão irrompeu numa
festa ... de gritaria ... de gargalhadas ... e de
felicidade!!!
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O Grogel tinha ido à mata buscar
a esposa e seus dois filhos!!! ... e agora podia viver
na PAZ e em LIBERDADE !!!... |